Aniversário (Dedicado ao tio Josué)
Aniversários vêm e vão
O primeiro no berço
Onde a mãe embala com o coração
Depois reza o terço
E a vida continua pelas passagens
A da meninice traz as artimanhas
E faz-se anos pelas viagens
Nas ruas onde se brinca e se apanha
Às vezes, a roupa rasgada
Faz o chinelo da mãe resmungar
Mas com um beijo está tudo acabado
E o papagaio está de novo no ar
Esse tempo de criança
Por fim irá se acabar
Mas ficará na lembrança
E pra alguém poderemos contar
Entra-se no jardim de infância
Tanta coisa nova, lápis, papel
E antes mesmo da discordância
Estamos cercados, e punidos como um réu
De repente, já estamos no primário
E as coisas parecem mais sérias
Temos um professor, que lembra um dicionário
E o que mais queremos: que chegue logo as férias
Tudo isso também passa
E rápido demais até
Quando vemos, perde a graça
De soltar boba e busca-pé
Logo no ginásio, a paixão
Primeiro pela professora
E tudo gira no coração
Pela nova e casta emoção sonhadora
Chega-se por fim a adolescência
E no encanto de uma menina
Troca-se o ponto pela reticência
E vem a Beth, a Rosa e a Marina
Parte-se com medo e vontade
Para a busca do proibido
Em prol da liberdade
Dos prazeres e da libido
A fase jovem, dizem ser a melhor
E descobrir-se nela algo de novo
A imensa vontade de ser sempre maior
De entregar a alma por seu povo
E os aniversários vão-se passando
Cada vez mais fortes e depressa
A vida se faz sofrendo, amando
E em função do que se interessa
E quando se é adulto
Transforma-se em um ser estranho
E o que era elogio passa a ser insulto
A sinceridade de criança desaparece por qualquer ganho
E aí chegamos no triste aniversário
Não existe mais bolo nem festa
Então recolhe-se a vida num diário
Mas pra você que ama, a felicidade ainda resta
E podemos ser jovens na velhice
Pois se morrer na vida é tão fácil, então
Porque não aproveitar o que Deus nos disse
E o espírito juvenil fazer crescer no coração