sábado, 29 de maio de 2021

Meu primeiro conto

 

12/08/2020

Sob tintas azuis

            O frio dói nos ossos assim como as preocupações doem na alma, não há como escapar de nenhum dos dois. Naquele canto do país, de temperaturas amenas, era assim o ano todo, praticamente.

            Uma amoreira cheia de flor encantava o caminho por onde passava a meninada. Era primavera. Dois cães ladravam e punham as galinhas a correr. Mas era só de brincadeira, pois no fundo, toda a bicharada pertencia à mesma família, aninhavam-se, protegiam-se.

            Por um momento, a menina sorvia aquele ar, como quem saboreia um delicioso sorvete de frutas, no sol de quase dezembro. Na estação das flores o aroma delas inebriava os corações, principalmente, dos cansados e aflitos, aqueles sem esperança se apegavam a essa doce fragrância para tornar a vida e o caminho aprazíveis. Ela também.

            Saía para brincar, depois, claro, de cumprir todas as suas obrigações: escovar as botas do pai, buscar lenha, dar milho às galinhas – nesse momento, ela se divertia com as galinhas d’angola e seu cocoricar, mas também com o velho galo Açafrão (porque era amarelo, como o sol). Ainda havia de vê-lo na panela um dia, pois Chica vivia prometendo. Ele se sentia o dono do galinheiro, só porque era o mais velho, mas também - tinha seu porte, majestoso, e reinava mesmo.

            Quando chegava ao curral, pulando a cerca, pois não tinha paciência de ir até a tronqueira - era mais fácil assim – acariciava a Morena, sua vaca predileta, e chamava-lhe pelo nome, conversava, trocava confidências. Depois, tocava os bezerros para o pasto de cima. Ela não entendia muito bem isso: porque era preciso separar os filhos de suas mães. Mas cumpria sua tarefa, sem reclamar, contudo, pensativa. No fundo, eram como ela.

            Saía correndo então, direto pra casa de Bernadete. Às vezes, chegava lá e sua amiga ainda estava cumprindo seus afazeres. Ela esperava, pacientemente, ajudando no que podia. Quando saíam para o pomar para brincar, iam decidindo pela trilha, de que seria a brincadeira do dia. Sempre se poderia inovar, mas achavam bom repetir...

            Tinha vez que o brincar era achar os murundus de formiga saúva, quem achasse mais, vencia. Mas era preciso manter distância, porque aquela picada doía. Outras, saíam pelo pasto para encontrar pés de plantas desconhecidas – mas isso era difícil, quase impossível – pois já haviam percorrido aquelas veredas tantas vezes e de tudo um pouco conheciam. E quando encontravam algo desconhecido, levavam para Preto Velho, um antigo senhor das redondezas, filho de escravos, sabedor das coisas da vida; além de contar boas histórias para quem tivesse tempo e ouvidos.

            Em algumas oportunidades, podiam andar a cavalo; selavam a égua Joinha e o cavalo Zenão; porém, isso era muito raro acontecer. Porque sempre alguém precisava deles na lida. Entretanto, estes dias eram muito comemorados, saíam a galope, iam longe, além das fronteiras da fazenda. Os animais já as conheciam e pareciam sentir prazer em carregá-las por todos os lados. Eram dispostos, contudo, mansos.

            Ocorreu que um dia chegou um rapaz à fazenda, vendendo um monte de bugigangas. Todos queriam ver, eram novidades, coisas da cidade, que moça da roça nunca tinha visto nem ouvido falar. Ritinha olhou aquela coisarada com curiosidade; espelhos pequenos que se carregava na bolsa, rouge para pintar as bochechas das moças feitas, relógios de algibeira e de pulso (última moda lá na capital, vindo da Europa, era o que dizia o mascate), batom também era uma raridade naquelas bandas, tecidos variados – lisos e estampados, finos e grossos. Dentre tudo, o que encheu os olhos da menina foi um pequeno livro. Papai me compra ele – mas você ainda nem sabe ler. Um dia saberei.

            Ela se afeiçoou àquelas letras miúdas, àquela capa dura de couro marrom. Não sabia o que continha ali, mas no seu coração a certeza é de que gostaria daquela história, cujo título apenas era do seu conhecimento: Sob tintas azuis. Falou para a amiga sobre o livro, mas a mesma não se interessou muito, achava enfadonhas as letras.

            Dois invernos se passaram. Finalmente Bambuzal ia ter uma escola, ali, bem pertinho dela. E Ritinha só pensava na mágica que seria aprender a ler e descobrir o que havia dentro daquelas páginas já um pouco amareladas do tempo ido. Sob tintas azuis não saía da sua cabeça.

            Um fazendeiro reuniu a todos da região para construírem a esperada escola. Algumas mulheres diziam à boca pequena: “Pra que isso? Quem quer menino na escola? A gente precisa é trabalhar, estudar é bobagem!” Graças a Deus, não era assim que pensava seu Savério, pois a menina contava os dias, as horas, os minutos e os segundos para a escola ficar pronta. Quando estava tudo em ordem, com a lousa, as carteiras, a mesa da professora e alguns outros objetos; faltava o principal: a professora. Quem havia de querer vir para aquele fim de mundo para ensinar o beabá às crianças? E buscaram na cidade grande, Montes Azuis, alguém que pudesse prestar esse favor à comunidade de Bambuzal. Seu Alfredo andou, escarafunchou, subiu e desceu; nada encontrou. Voltou, sem a professora.

            Ritinha sentiu-se murchar de tanta tristeza, chegou até a ter febre. Chica, a cozinheira, dizia que febre sem doença é a pior coisa pra menino pequeno. Ficou dias prostrada, não conseguia sair da cama.

            Resolveram colocar um anúncio no jornal à procura da candidata para lecionar naquelas bandas: o salário não era ruim e havia ainda moradia e comida de graça. Demorou-se duas semanas e apareceu uma moça, de tez amorenada, olhos verdes e astutos, nem baixa nem alta, estatura mediana. Tinha a cintura fina e os quadris arredondados. Apresentou-se à fazenda de seu Savério, cuja viuvez lhe esticara as rugas e lhe dava um ar de sempre quase tristeza. Porém, recebeu a moça, de seus vinte e poucos anos, muito bem e com alegria. Ritinha – milagrosamente – curou-se. Ela era de Ouro Preto, estudara em Belo Horizonte as Letras Vernáculas, formara-se há apenas seis meses e estava justamente à procura de uma oportunidade. Fora um primo, que passara por Montes Azuis e lera o anúncio, que lhe dera a boa notícia. Indagou, rapidamente, se havia alguém já se apresentado. Disseram-lhe que não. Ficou rubra de felicidade.

            Professora Bárbara era só alegria, realizaria seu grande sonho: ensinar. No primeiro dia, apenas Ritinha, Bernadete e mais três meninos apareceram. Entretanto, ela não se deixou abater, apresentou-se aos alunos e perguntou-lhes sobre suas vidas. Ritinha trouxera o livro consigo, fez questão de mostrar à mestra. Mas ainda havia um longo caminho a ser percorrido, letra por letra, sílaba por sílaba.

             O quarto de moça ficava ao lado da cozinha, havia sido construído com outra intenção, de guardar o que era colhido ali, na fazenda. Instalaram-na bem, com uma boa cama de madeira de lei, um criado mudo e uma mesa. Ainda fizeram um banheiro agregado ali. Era pessoa modesta e reservada.

            Ritinha recebeu a recomendação de que não molestasse a moça em seus momentos de folga; mas de nada adiantou, pois sua imensa vontade de aprender, de saber mais e mais, fazia dela uma adorada discípula. E Bárbara gostava disso, dessa imensa e inestimável fome do saber. Tornaram-se muito próximas.

            Em pouco tempo, coisa de dois meses, no máximo, Ritinha já lia. Pegou então o livro de capa de couro marrom e começou a lê-lo, porém, as palavras eram difíceis, desconhecidas e acabou desanimando. Ficou tristíssima, decepcionada, não sabia ao certo, se era com ela ou com o livro.

            Triste, foi à escola, a professora logo notou que havia algo errado. Sondou a menina e descobriu o motivo. Disse-lhe que lhe daria um outro livro, mais apropriado a sua idade.  Desse modo ocorreu.

            Aos poucos, a fama da boa professora se espalhou e ela teve muitos pupilos; chegavam, às vezes, um tanto desconfiados, sem muito interesse, mas ela ia ganhando a confiança dos moleques e das meninotas. Os pais também se mostraram satisfeitos com a sabedoria que seus filhos começaram a demonstrar em casa, liam tudo em todo lugar e já faziam as contas básicas de maneira rápida.

            Uma tarde de primavera, Bárbara e seus pupilos iam fazer um passeio com piquenique, próximo ao Rio dos Bagres; isso tinha sido combinado há tempos, era para comemorar o aniversário de dois meninos gêmeos: Eduardo e Marcos. Cada um levaria seu farnel para contribuir com o banquete. Aconteceu que, justamente neste dia, o pai de Ritinha adoeceu. Ela – muito cheia de chamegos - não quis ir, não quis sair do lado de seu pai de modo algum. Era muito apegada a ele. Desde que a mãe morrera, ela ainda mais se aproximara dele.

            Não havia como a professora cancelar o passeio, afinal, a criançada já estava se programando para isso havia tempos. Tudo seguiu seu curso. A filha amorosa a cuidar do pai febril e prostrado, ao lado de sua cama; a professora com seus meninos a investigar a natureza e a usufruir de toda aquela beleza. A passarinhada cantava no terreiro no fim do dia, parecendo anunciar que os últimos raios de sol se punham naquele momento. Instante de beleza.

            Lá pelas tantas, a professorinha chega, parecendo cansada. Entrou na casa e logo perguntou à velha Chica se Seu Savério havia melhorado. A negra lhe respondeu que ainda ardia em febre, mas não queria que se chamasse o doutor. Aceitava de bom grado as ervas preparadas por ela, mas nada de médico. Bárbara se adiantou, pegou a égua Joinha e rumou para o povoado atrás de Dr. Joaquim. Chegou lá, esbaforida, assim como o animal. Viagem perdida, o doutor havia ido socorrer uma mulher que estava nos dias de ganhar seu bebê.  Na região, só havia ele. Ocorreu a ela, passar na botica, quem sabe o Seu Matias poderia ajudá-lo. Desta forma, tudo transcorreu.

            Seu Savério, o senhor está é de espinhela caída – disse o boticário, apoiado na sua longa experiência... E antes, só havia ele para cuidar daquela gente. Receitou suas ervas e suas pílulas homeopáticas e garantiu que em uma semana ele estaria pronto pra lida novamente.

            Fato é, que assim aconteceu, Seu Savério, em dois tempos, ficou saradinho. De quebra, ainda ficou muito amigo da professorinha, agradecido que só. Passaram a prosear todos os dias. Descobriu-se cheio de energia para a vida. Aos poucos, foi nascendo dentro do peito, um sentimento desconhecido por aquela moça tão graciosa. Da parte dela, aquele sentimento crescia e era novidade, pois há tempos não sentia essas emoções, tudo ficara em um passado longínquo. Só estudara e trabalhara, nada mais.

            Chica, velha matreira e experiente das histórias de amor, logo arqueou as sobrancelhas e deduziu – Isso vai dar em casório. Pensou: será que a menina Ritinha há de gostar da novidade? Mas pegou seu tacho e foi lavar a taioba, pois com ou sem casamento, o almoço tinha que estar pronto às 11h:00min. De tardinha, quando a professora chegou, antes de ela entrar em seu quarto; Chica resolveu assuntar. Como quem não quer nada, com aquela prosa de cerca-lourenço, foi indagando a moça. A senhora é moça nova e bonita, não tem precisão de ficar no meio desse mato, longe da cidade. É estudada. A senhora sabe dos sentimentos do patrão, né? Ele é homem que vivia no sofrimento, porque perdeu a mulher logo que Ritinha nasceu. Mas olha que agora ele é só alegrias.Voltou a sorrir. Professora Bárbara saiu de fininho, fingiu que aquela prosa toda não era com ela.

            À noite, em seu quarto, a professora pensava, lembrava, ruminava e engolia aquilo tudo; eles não sabiam de nada.  Havia Ritinha, menina doce, o que ela pensaria? Será que gostaria que seu pai se casasse? Pegou seu livro, pôs-se a ler, pra ver se distraía a mente daquele alvoroço todo. Talvez devesse ir embora. Os pensamentos iam e vinham, não conseguia se concentrar na leitura, por mais que o enredo fosse surpreendente.

            No outro dia, Ritinha levantou cedo, disse a Chica que iria em casa de Bernadete. Oh, menina, e as obrigações, esqueceu? Ela disse que iria lá e voltaria antes do almoço para fazer “tudinho”. Afinal, era sábado. Pegou a égua montou no pelo mesmo e foi, desembestada estrada afora. Chegando lá, sua amiga nem havia acordado. Chamou da varanda, D. Marcelina atendeu e mandou entrar. “Pode lá acordar ela!” O que havia de tão urgente... Contou então a amiga, que havia escutado toda a conversa de Chica e D. Bárbara, o caso é que ela nunca tinha pensado nessa possibilidade – a de o pai se casar de novo – mas até que não achava má ideia. Mas a professora não deu um pio, saiu calada, muda, como quem não ouvisse nada. Será que ela não gosta do pai? Perguntou Ritinha à amiga. E o que poderiam fazer pra saber?

            A manhã não deu quase tempo de brincar e Ritinha tinha que voltar. Promessa a Chica. Foi chegando e já indo cuidar dos afazeres. Avistou a professora, caminhando por entre o laranjal, pensativa, acabrunhada. Não teve coragem de ir lá. Mas também precisava fazer suas tarefas. Era uma mistura de querer e ao mesmo tempo não querer. Criança tem dessas coisas: sentimentos confusos, nada fáceis de explicar. Quando deu por si, Chica tocava a sineta, chamando pra almoçar. Como encarar os dois?

             A professora não quis almoçar, disse estar indisposta. E Ritinha não sabia se estava feliz, mas, pelo menos aliviada, sim. Chica mais tarde bateu à porta dela. Oh, Dona Bárbara, a senhora está melhor? Quer que eu prepare alguma coisa? Um chá? Respondeu-lhe com voz miúda de quem não quer conversa que não queria nada e que estava bem. A verdade era que tinha fome, o estômago chegava a doer, mas faltava era coragem de enfrentar os fatos e os sentimentos.

            Dia seguinte, domingo, dia de missa. Como não sair do quarto?  A menina e seu pai estavam enfatiotados para seguir o ritual do principal dia da semana, aquele dedicado ao Senhor. Contudo, D. Bárbara não aparecia e, intrigados, pensaram que ela poderia ter adoecido. Ritinha, impaciente e preocupada, foi até lá. Chamou, chamou, mas não ouviu nem um pio. Voltou e disse ao pai, ela não me respondeu. Chica também estava toda elegante no seu único vestido enfeitado, pronta pra ouvir a missa de Padre Alberto.

            Quando chegaram da missa, depois de muita conversa na porta da igreja, falatório sobre política, sobre a quermesse, sobre o dia de Santo Agostinho, a festa da comunidade, cada qual procurou o que fazer. Ritinha trocou o vestido rosa claro por um de brincar e perguntou ao pai se poderia ir ao rio, a cheia deixava-o mais bonito, caudaloso, rico. E esse era um dos divertimentos dela, passar na pinguela, molhar os pés, as mãos... sentir aquela força que vinha da natureza.

            Seu Savério ligou o radinho à pilha para ouvir as notícias, enquanto se refestelava na cadeira de balanço de palha, que havia pertencido a seu avô e passara a seu pai e agora era dele. Tomava um refrescante suco de graviola, que Chica lhe servira, a fruta do quintal mais antiga que havia naquela fazenda, também era dos tempos idos do seu avô. Pensativo, veio na memória, a professora. Ou melhor, veio no coração. Lembrava das conversas e das risadas frouxas, dos roçares displicentes e dos olhares lânguidos. será que era imaginação? Será? Bem, ia lá ver o que estava acontecendo e abriria o coração à moça. Sabia que a diferença de idade poderia ser um problema.

            A porta estava aberta, mesmo assim bateu. Ninguém respondeu, nada, nenhum barulho. Entrou, cuidadosamente, temeroso de encontrá-la, sem disposição para ouvi-lo. Eis que tem a grata surpresa de encontrar vazio o aposento, sem nada. Indagou-se onde estariam os pertences dela. Olhou de repente para a cama e viu um papel dobrado. Em letras miúdas, um bilhete curto, escrito às pressas, era o que parecia, de pronto. Abriu-o e leu: “Caro, Senhor Savério, tive que partir. Desculpe-me não poder me despedir. Um beijo em Ritinha.” Essas palavras foram assimiladas de forma a corroer o estômago. E ele se perguntava por que não havia esperado o que era tão urgente.

            Quando Ritinha chegou do rio para o almoço e soube do ocorrido, ficou desolada. Perdera a professora e perdera a mulher que poderia casar-se com o pai. Eram duas perdas em uma.  A menina lamentou-se por demais. Quem haveria de ajudá-la a ler aquele livro? “Sob tintas azuis” ficaria guardado. Quem lhe ensinaria todos os segredos do universo? Quem lhe explicaria a história do seu país? Mas seu pai também estava inquieto e cheio de questionamentos. Outrora, deveria ter sido mais firme em suas atitudes e mais claro em seus sentimentos. O que fazer agora, se ela viera pelo anúncio?

            Dias se passaram. Meses se passaram. Anos se passaram. Ritinha estava completando 15 anos, era moça feita. Linda e inteligente, mas teimosa que só. Cismara de que o vestido deveria ser comprado na cidade e não havia quem a fizesse mudar de ideia. O pai faria a sua vontade. Foram no Ford novinho do pai, vermelho, reluzente ao sol. Os negócios iam bem. O gado de corte estava dando lucro e a lavoura de algodão também.

            Eram dez horas da manhã mais ou menos, quando chegaram à loja. Ritinha sabia exatamente o que queria, disse à atendente, detalhadamente, como gostaria do vestido. A moça anotou tudo e em seguida tirou as medidas dela. Avisou-lhe que em três dias poderia vir fazer a primeira prova. Saiu de lá toda fagueira. Chamou o pai para ir à confeitaria, sabia que haviam inaugurado uma recentemente. Comeram um delicioso bolo de nozes, salpicado de açúcar de confeiteiro, cujo sabor era inigualável, acompanhado de um café encorpado.

            Ao saírem, a moça vê, do outro lado da rua, a antiga professora, andava com um rapaz a seu lado, que deveria ter a sua mesma idade, entre 15 e 16 anos. Ela balançou as mãos, gesticulou e a chamou, porém havia muitos transeuntes e a outra não ouviu. Ritinha fez menção de sair correndo, mas o pai a deteve. Disse-lhe, ressentidamente, ela não quis ficar lá e nem ao menos se despediu de nós. Deixe pra lá. Além disso, um agravante: estava acompanhada.

            Bárbara fugiu aflita pelo meio da multidão, não queria reencontrá-los, não queria dar explicações, não queria reviver emoções. Era só isso. Seu filho não entendeu nada. Por que fugiu? Ora, não fugi, do que está falando? Chegou em casa e foi direto para o quarto, a cabeça doía, latejava agora. Como poderia explicar o que fez, ou melhor, não queria explicar, a vida já lhe tinha cobrado muito.

            Na fazenda, tarde da noite, Ritinha sentava com seu pai na varanda, vendo a lua e admirando o céu pontilhado de estrelas, pensava em sua festa, nos quitutes que Chica e D. Mercedes fariam, no baile. Mas, também sabia que seu pai ficara importunado com a visão de D. Barbara. Ela ainda se lembrava daquela conversa que ouvira entre Chica e a professora. Resolveu perguntar: Pai, o senhor gosta da professora Barbara? Ora bolas, que assunto é esse agora, Ritinha? Vou dormir, levantou-se, rapidamente, atravessou a sala e dirigiu-se ao seu quarto.

             Ritinha ainda ficou por um tempo ali, com a cabeça fervilhando de pensamentos. Quando foi para o quarto, já havia traçado um plano, mas precisaria da ajuda de Bernadete.

            Amanheceu um sábado chuvoso, aquela chuva manhosa, fininha e um friozinho – que a vontade era ficar na cama. Mas Ritinha pulou da cama, tomou um café ligeiro, com a broa de milho, que ainda estava quentinha, Chica acabara de tirar do forno. Montou na égua e partiu. A preta ainda gritou: Menina, vai pegar um resfriado. Meu Deus, que desassossego é esse tão cedo!? Seu Savério veio logo a seguir. Sentou, tomou seu café, sem dar um pio, além do bom dia. E a velha ficou matutando o que é que essa gente tinha. Porque conhecia aqueles dois demais, tanto, que qualquer mudança no comportamento, ela acendia o alerta. Aí, tem. Precisava assuntar isso. Foi até o galinheiro, escolher galinha gorda, boa de matar, porque amanhã era domingo e dia de fazer ao molho pardo.

            Ritinha chegou era por volta das dez horas, de cara matreira, como quem houvesse aprontado algo e a preta viu aquilo. O que é que você tá aprontando, menina? Por que saiu daqui tão cedo e desembestada na égua? A pobre deve tá cansada, que já é velha que nem eu. Mas a menina fez de boba e disse que ia cuidar das obrigações. Perguntou pelo pai. E descobriu que ele estava cuidando do gado, desde cedo, logo depois que ela saíra.

             Amanhã iria cedo à venda, junto com a amiga, antes da missa. Ninguém perceberia.

            Era de manhãzinha, quando Ritinha acordou. O galo Açafrão cantava no galinheiro. O sol estava começando a despontar atrás da colina, um tom de amarelo-alaranjado se desmanchava no céu. O dia ia ser quente. Tirou a camisola, vestiu o vestido floral de rosas pequeninas, próprio de domingo, escovou os dentes, penteou o cabelo, amarrando uma fita no cabelo pra combinar, calçou os sapatos e seguiu pra cozinha. Chicaaaaaa, o que você tá fazendo? Que cheiro bom é esse? E ela, antes de responder, perguntou: Uai, por que a menina acordou com as galinhas hoje? É broa de milho, sô! Já tirei do forno. Menina, espera esfriar um pouco, vai fazer mal, comer assim. Mas Ritinha não deu nem ouvidos, pegou um pedaço enorme e saiu a comer terreiro afora. Chica ainda saiu atrás, mas a menina já estava longe, perto da porteira, nem adiantava gritar.

            No final da mata, Bernadete esperava por ela, conforme o combinado. Seguiram, então, juntas, para a venda do Salustiano. Iam encontrar o Preto Velho pra conversar com ele, que sempre sabia de tudo, pra ver se descobriam o que podia ter acontecido com a professora. Ficaram lá por uma hora, nada de ele chegar; já estavam desistindo e indo embora, quando ele apontou na curva da estrada. Sua sabedoria e seus conselhos eram estimados por todos da região, pobre ou rico, branco ou preto, mulher ou homem; a maioria das pessoas gostava de procurá-lo pra resolver problemas, de ordem espiritual, amorosa. Enfim, de tudo quanto era jeito.

             As meninas se aproximaram dele. Um sorriso largo, de poucos dentes se abriu e perguntou logo: O que é que essas meninas precisam? Elas foram logo despejando tudo, tudo que sabiam! O homem ouviu, calado, sem fazer pergunta alguma, interessado na história. Quando as moças terminaram, ele disse, simplesmente: isso é caso de amor mal resolvido. E elas perguntaram como poderiam resolver a questão. O Preto Velho respondeu-lhes que o jeito era ir à cidade e buscar a tal da moça. Mas e se ela não quisesse? Poderiam inventar uma história de que o Seu Savério estava muito doente e queria muito falar-lhe. Mas elas não sabiam onde exatamente encontrá-la. Isso seria fácil, segundo ele. Afinal, a cidade nem era tão grande e professora não haveria de ter muitas. Mas como inventariam uma desculpa para irem sozinhas lá? Bem, tinha o vestido do aniversário. Agradeceram ao Preto Velho e voltaram correndo a tempo de ir pra missa. Seu pai estava impaciente, pois não gostava de se atrasar. Bernadete tomou o rumo de casa e Ritinha também.

            Chegaram à igreja e o pai estava calado, sorumbático; Ritinha sabia que ele não estava feliz, já se passara tanto tempo desde que sua mãe morrera e a única vez que o vira alegre fora quando a professora estava lá, morando na fazenda. Ela parecia um alento a seu coração, mesmo sem acontecer nada, sem esperanças... ele estivera a sorrir de novo, naquele tempo. Depois que ela se foi, de repente, ele se acabrunhara novamente. Não gostava de ver o pai daquele jeito.

            Quando chegaram da missa, após aquele bate-papo com amigos e velhos companheiros, dirigiram-se para casa, a pé. Ritinha puxou assunto. Pai, quando mesmo voltaremos à vila para buscar o vestido? Fingiu não saber, apenas para puxar a prosa e ver se conseguia saber o que se passava naquele coração solitário. Seu pai era moço ainda, tinha o direito de se casar de novo e ser feliz. E de supetão, perguntou: Pai, por que será que a professora não nos atendeu aquele dia? Por que será que ela foi embora tão repentinamente, não se despediu? Não sei. Foi a única resposta que abstraiu. Cada vez mais entristecido demonstrava estar.

            Após o almoço delicioso feito pelas mãos mágicas de Chica: ora por nobis, colhido ali perto do galinheiro, um pernil assado, do leitãozinho morto há alguns dias e uma polenta fumegante com queijo coalho por cima; Ritinha se deitou na rede para ler aquele romance, que há muito havia esquecido em meio aos brinquedos de criança, aquele comprado na mão do mascate. A história era de um mulato que se casava com uma mulher branca, contra tudo e todos os preconceitos.

            Na segunda-feira, Ritinha pôs-se de pé, eram cinco da manhã, Açafrão – com todo o seu esplendor alaranjado - mal tinha dado o primeiro alarde do dia. Mas Chica já estava nos afazeres e colocando a mesa do café. Tomou seu café com um leite bem quente, pura nata, como ela saboreava, comeu o biscoito de polvilho e já foi logo avisando à preta que ia ter que sair pela manhã, iria na casa de Bernadete, pois tinha que ajudá-la em uma tarefa.

            Pegaram a charrete do pai de Bernadete e seguiram pra cidade, o caminho conheciam de cor. Ao chegar lá, foram direto à confeitaria, perguntaram para o garçom se sabia de uma professora que vinha sempre ali, descreveram-na de modo detalhado. E o moço logo falou que sim, que sabia quem era, inclusive, disse que ela passava todos os dias – exceto sábado e domingo - por volta das nove horas, acompanhada de um rapazote. As meninas ficaram excitadíssimas, eram oito e quarenta. Agradeceram-no pela informação e se sentaram à mesa; Bernadete pediu uma croissant de queijo com presunto e ameixa, Ritinha pediu sua adorada torta de nozes, ambos acompanhados de um delicioso chocolate quente.

            Não demorou muito e viram adentrar ao salão, a professora; estava só, usava um vestido branco de poás azuis, um sapato azul e um laço de fita no cabelo da mesma cor. As meninas ficaram inquietas, esperaram-na se assentar e fazer o pedido. Assim que isso aconteceu, foram até a mesa.  A professora se assustou, não esperava aquele encontro e muito menos o queria. Fez menção de se levantar, mas Ritinha segurou seu braço e firmemente falou-lhe: Por que nos abandonou, sem ao menos se despedir? Acho que mereço pelo menos uma explicação. Barbara abaixou a cabeça e pôs-se a chorar. As meninas não sabiam o que fazer e ficaram totalmente desnorteadas. Pediram ao garçom um copo de água com açúcar. Após um tempo, que pareceu uma eternidade às duas meninas, Barbara começou a contar-lhes sua história.

            “Eu tinha apenas quatorze anos, quando me apaixonei perdidamente por um rapaz, este me prometeu e jurou amor eterno. Entretanto, ele partiu em busca de seu sonho e não voltou, morreu, vítima de uma doença desconhecida. Só que quando ele se foi, eu carregava no ventre um filho dele. Fui expulsa de casa. Bem, para resumir, deixei meu filho em um lugar seguro e não desisti do meu sonho de estudar, tornei-me professora. Após sair da fazenda, busquei meu filho e hoje vivo com ele. Foi isso que aconteceu e por isso eu fugi, porque estava me apaixonando por seu pai, Ritinha. Como poderia contar-lhe tudo isso? Ele não iria me querer, não, eu, uma mulher desonrada. Sei que não tenho esse direito”

            As meninas não abriram a boca enquanto a professora falava. Ficaram pasmas com a história. Entretanto, passado o tempo necessário da assimilação daquilo tudo, Ritinha disse-lhe, calmamente, acho que você merece sim ser feliz. Meu pai estava tão feliz, quando você morava lá. Você o fazia feliz. Acho que deveria lhe contar a história também. Tenho certeza de que ele entenderá o que aconteceu e, quem sabe, poderemos ser uma grande família, ganharei até um irmão.

            Bárbara prometeu a elas que iria pensar a respeito, mas sentia muita vergonha de contar a história ao Seu Savério, tinha medo da sua reação. Ritinha, por sua vez, garantiu-lhe que o pai era um homem muito generoso e saberia compreendê-la. E fez uma pergunta: Você gosta do meu pai? Bárbara disse que depois do primeiro amor de sua vida e pai de seu filho, nunca mais havia se interessado por homem algum, a não ser o seu pai. Ritinha ficou radiante e disse-lhe que tudo daria certo. Acrescentou que gostaria de convidá-la para sua festa de 15 anos, seria no próximo sábado, às 19h:00min, aliás, ela e o filho. Por sinal, como ele se chamava? Ricardo, esse era o nome do rapaz, que estava com 14 anos também. Ela prometeu pensar com carinho.

            Era sábado, dia 20 de setembro de 1932, o céu coroava o dia com matizes de azul, não havia uma nuvem sequer, era a esperada festa em que Ritinha debutaria. Estava ansiosa, menos pela festa e mais pelo fato de esperar que seus convidados especiais chegassem. As mesas estavam arrumadas com ramos de flores silvestres embaixo de uma bela tenda branca. Do outro lado, havia uma banda de música que tocava valsas e sonatas, ao som de violinos e outros acordes advindos de outros instrumentos. O bolo era de três andares, com rosas nas bordas, uma verdadeira escultura.

            Bernadete tentava acalmar a amiga, dizendo que tudo daria certo e que ela aproveitasse a festa, pois tudo aquilo era para ela. Ela havia feito o que era possível.

            Às 19h:20min, a professora Bárbara chega, acompanhada de seu belo filho. Ritinha não se conteve de tanta felicidade. Aproximou-se deles e cumprimentou-os. Nesse exato momento, seu pai se vira e de longe, vislumbra a silhueta da moça, que trajava um belo vestido azul anil. Aproxima-se e também os cumprimenta, dando-lhes as boas-vindas. Ritinha se adianta, convida Ricardo para dançar e, sorrateiramente, sai, dizendo que ambos tinham muito a conversar.

 

           

 

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