12/08/2020
Sob
tintas azuis
O frio dói nos ossos assim como as
preocupações doem na alma, não há como escapar de nenhum dos dois. Naquele
canto do país, de temperaturas amenas, era assim o ano todo, praticamente.
Uma amoreira cheia de flor encantava
o caminho por onde passava a meninada. Era primavera. Dois cães ladravam e
punham as galinhas a correr. Mas era só de brincadeira, pois no fundo, toda a
bicharada pertencia à mesma família, aninhavam-se, protegiam-se.
Por um momento, a menina sorvia
aquele ar, como quem saboreia um delicioso sorvete de frutas, no sol de quase
dezembro. Na estação das flores o aroma delas inebriava os corações,
principalmente, dos cansados e aflitos, aqueles sem esperança se apegavam a essa
doce fragrância para tornar a vida e o caminho aprazíveis. Ela também.
Saía para brincar, depois, claro, de
cumprir todas as suas obrigações: escovar as botas do pai, buscar lenha, dar
milho às galinhas – nesse momento, ela se divertia com as galinhas d’angola e
seu cocoricar, mas também com o velho galo Açafrão (porque era amarelo, como o
sol). Ainda havia de vê-lo na panela um dia, pois Chica vivia prometendo. Ele
se sentia o dono do galinheiro, só porque era o mais velho, mas também - tinha
seu porte, majestoso, e reinava mesmo.
Quando chegava ao curral, pulando a
cerca, pois não tinha paciência de ir até a tronqueira - era mais fácil assim –
acariciava a Morena, sua vaca predileta, e chamava-lhe pelo nome, conversava,
trocava confidências. Depois, tocava os bezerros para o pasto de cima. Ela não
entendia muito bem isso: porque era preciso separar os filhos de suas mães. Mas
cumpria sua tarefa, sem reclamar, contudo, pensativa. No fundo, eram como ela.
Saía correndo então, direto pra casa
de Bernadete. Às vezes, chegava lá e sua amiga ainda estava cumprindo seus
afazeres. Ela esperava, pacientemente, ajudando no que podia. Quando saíam para
o pomar para brincar, iam decidindo pela trilha, de que seria a brincadeira do
dia. Sempre se poderia inovar, mas achavam bom repetir...
Tinha vez que o brincar era achar os
murundus de formiga saúva, quem achasse mais, vencia. Mas era preciso manter
distância, porque aquela picada doía. Outras, saíam pelo pasto para encontrar
pés de plantas desconhecidas – mas isso era difícil, quase impossível – pois já
haviam percorrido aquelas veredas tantas vezes e de tudo um pouco conheciam. E
quando encontravam algo desconhecido, levavam para Preto Velho, um antigo
senhor das redondezas, filho de escravos, sabedor das coisas da vida; além de
contar boas histórias para quem tivesse tempo e ouvidos.
Em algumas oportunidades, podiam
andar a cavalo; selavam a égua Joinha e o cavalo Zenão; porém, isso era muito
raro acontecer. Porque sempre alguém precisava deles na lida. Entretanto, estes
dias eram muito comemorados, saíam a galope, iam longe, além das fronteiras da
fazenda. Os animais já as conheciam e pareciam sentir prazer em carregá-las por
todos os lados. Eram dispostos, contudo, mansos.
Ocorreu que um dia chegou um rapaz à
fazenda, vendendo um monte de bugigangas. Todos queriam ver, eram novidades,
coisas da cidade, que moça da roça nunca tinha visto nem ouvido falar. Ritinha
olhou aquela coisarada com
curiosidade; espelhos pequenos que se carregava na bolsa, rouge para pintar as
bochechas das moças feitas, relógios de algibeira e de pulso (última moda lá na
capital, vindo da Europa, era o que dizia o mascate), batom também era uma
raridade naquelas bandas, tecidos variados – lisos e estampados, finos e grossos.
Dentre tudo, o que encheu os olhos da menina foi um pequeno livro. Papai me
compra ele – mas você ainda nem sabe ler. Um dia saberei.
Ela se afeiçoou àquelas letras
miúdas, àquela capa dura de couro marrom. Não sabia o que continha ali, mas no
seu coração a certeza é de que gostaria daquela história, cujo título apenas
era do seu conhecimento: Sob tintas azuis. Falou para a amiga sobre o livro,
mas a mesma não se interessou muito, achava enfadonhas as letras.
Dois invernos se passaram.
Finalmente Bambuzal ia ter uma escola, ali, bem pertinho dela. E Ritinha só
pensava na mágica que seria aprender a ler e descobrir o que havia dentro daquelas
páginas já um pouco amareladas do tempo ido. Sob tintas azuis não saía da sua
cabeça.
Um fazendeiro reuniu a todos da
região para construírem a esperada escola. Algumas mulheres diziam à boca
pequena: “Pra que isso? Quem quer menino na escola? A gente precisa é
trabalhar, estudar é bobagem!” Graças a Deus, não era assim que pensava seu Savério,
pois a menina contava os dias, as horas, os minutos e os segundos para a escola
ficar pronta. Quando estava tudo em ordem, com a lousa, as carteiras, a mesa da
professora e alguns outros objetos; faltava o principal: a professora. Quem
havia de querer vir para aquele fim de mundo para ensinar o beabá às crianças?
E buscaram na cidade grande, Montes Azuis, alguém que pudesse prestar esse
favor à comunidade de Bambuzal. Seu Alfredo andou, escarafunchou, subiu e
desceu; nada encontrou. Voltou, sem a professora.
Ritinha sentiu-se murchar de tanta
tristeza, chegou até a ter febre. Chica, a cozinheira, dizia que febre sem
doença é a pior coisa pra menino pequeno. Ficou dias prostrada, não conseguia
sair da cama.
Resolveram colocar um anúncio no
jornal à procura da candidata para lecionar naquelas bandas: o salário não era
ruim e havia ainda moradia e comida de graça. Demorou-se duas semanas e
apareceu uma moça, de tez amorenada, olhos verdes e astutos, nem baixa nem
alta, estatura mediana. Tinha a cintura fina e os quadris arredondados. Apresentou-se
à fazenda de seu Savério, cuja viuvez lhe esticara as rugas e lhe dava um ar de
sempre quase tristeza. Porém, recebeu a moça, de seus vinte e poucos anos,
muito bem e com alegria. Ritinha – milagrosamente – curou-se. Ela era de Ouro
Preto, estudara em Belo Horizonte as Letras Vernáculas, formara-se há apenas
seis meses e estava justamente à procura de uma oportunidade. Fora um primo,
que passara por Montes Azuis e lera o anúncio, que lhe dera a boa notícia.
Indagou, rapidamente, se havia alguém já se apresentado. Disseram-lhe que não.
Ficou rubra de felicidade.
Professora Bárbara era só alegria,
realizaria seu grande sonho: ensinar. No primeiro dia, apenas Ritinha,
Bernadete e mais três meninos apareceram. Entretanto, ela não se deixou abater,
apresentou-se aos alunos e perguntou-lhes sobre suas vidas. Ritinha trouxera o
livro consigo, fez questão de mostrar à mestra. Mas ainda havia um longo
caminho a ser percorrido, letra por letra, sílaba por sílaba.
O quarto de moça ficava ao lado da cozinha,
havia sido construído com outra intenção, de guardar o que era colhido ali, na
fazenda. Instalaram-na bem, com uma boa cama de madeira de lei, um criado mudo
e uma mesa. Ainda fizeram um banheiro agregado ali. Era pessoa modesta e
reservada.
Ritinha recebeu a recomendação de
que não molestasse a moça em seus momentos de folga; mas de nada adiantou, pois
sua imensa vontade de aprender, de saber mais e mais, fazia dela uma adorada
discípula. E Bárbara gostava disso, dessa imensa e inestimável fome do saber.
Tornaram-se muito próximas.
Em pouco tempo, coisa de dois meses,
no máximo, Ritinha já lia. Pegou então o livro de capa de couro marrom e
começou a lê-lo, porém, as palavras eram difíceis, desconhecidas e acabou
desanimando. Ficou tristíssima, decepcionada, não sabia ao certo, se era com
ela ou com o livro.
Triste, foi à escola, a professora
logo notou que havia algo errado. Sondou a menina e descobriu o motivo. Disse-lhe
que lhe daria um outro livro, mais apropriado a sua idade. Desse modo ocorreu.
Aos poucos, a fama da boa professora
se espalhou e ela teve muitos pupilos; chegavam, às vezes, um tanto
desconfiados, sem muito interesse, mas ela ia ganhando a confiança dos moleques
e das meninotas. Os pais também se mostraram satisfeitos com a sabedoria que
seus filhos começaram a demonstrar em casa, liam tudo em todo lugar e já faziam
as contas básicas de maneira rápida.
Uma tarde de primavera, Bárbara e
seus pupilos iam fazer um passeio com piquenique, próximo ao Rio dos Bagres;
isso tinha sido combinado há tempos, era para comemorar o aniversário de dois
meninos gêmeos: Eduardo e Marcos. Cada um levaria seu farnel para contribuir
com o banquete. Aconteceu que, justamente neste dia, o pai de Ritinha adoeceu. Ela
– muito cheia de chamegos - não quis ir, não quis sair do lado de seu pai de
modo algum. Era muito apegada a ele. Desde que a mãe morrera, ela ainda mais se
aproximara dele.
Não havia como a professora cancelar
o passeio, afinal, a criançada já estava se programando para isso havia tempos.
Tudo seguiu seu curso. A filha amorosa a cuidar do pai febril e prostrado, ao
lado de sua cama; a professora com seus meninos a investigar a natureza e a usufruir
de toda aquela beleza. A passarinhada cantava no terreiro no fim do dia,
parecendo anunciar que os últimos raios de sol se punham naquele momento.
Instante de beleza.
Lá pelas tantas, a professorinha
chega, parecendo cansada. Entrou na casa e logo perguntou à velha Chica se Seu
Savério havia melhorado. A negra lhe respondeu que ainda ardia em febre, mas
não queria que se chamasse o doutor. Aceitava de bom grado as ervas preparadas
por ela, mas nada de médico. Bárbara se adiantou, pegou a égua Joinha e rumou
para o povoado atrás de Dr. Joaquim. Chegou lá, esbaforida, assim como o
animal. Viagem perdida, o doutor havia ido socorrer uma mulher que estava nos
dias de ganhar seu bebê. Na região, só
havia ele. Ocorreu a ela, passar na botica, quem sabe o Seu Matias poderia
ajudá-lo. Desta forma, tudo transcorreu.
Seu Savério, o senhor está é de
espinhela caída – disse o boticário, apoiado na sua longa experiência... E
antes, só havia ele para cuidar daquela gente. Receitou suas ervas e suas
pílulas homeopáticas e garantiu que em uma semana ele estaria pronto pra lida
novamente.
Fato é, que assim aconteceu, Seu
Savério, em dois tempos, ficou saradinho. De quebra, ainda ficou muito amigo da
professorinha, agradecido que só. Passaram a prosear todos os dias.
Descobriu-se cheio de energia para a vida. Aos poucos, foi nascendo dentro do
peito, um sentimento desconhecido por aquela moça tão graciosa. Da parte dela, aquele
sentimento crescia e era novidade, pois há tempos não sentia essas emoções,
tudo ficara em um passado longínquo. Só estudara e trabalhara, nada mais.
Chica, velha matreira e experiente
das histórias de amor, logo arqueou as sobrancelhas e deduziu – Isso vai dar em
casório. Pensou: será que a menina Ritinha há de gostar da novidade? Mas pegou
seu tacho e foi lavar a taioba, pois com ou sem casamento, o almoço tinha que
estar pronto às 11h:00min. De tardinha, quando a professora chegou, antes de
ela entrar em seu quarto; Chica resolveu assuntar. Como quem não quer nada, com
aquela prosa de cerca-lourenço, foi
indagando a moça. A senhora é moça nova e bonita, não tem precisão de ficar no
meio desse mato, longe da cidade. É estudada. A senhora sabe dos sentimentos do
patrão, né? Ele é homem que vivia no sofrimento, porque perdeu a mulher logo
que Ritinha nasceu. Mas olha que agora ele é só alegrias.Voltou a sorrir.
Professora Bárbara saiu de fininho, fingiu que aquela prosa toda não era com
ela.
À noite, em seu quarto, a professora
pensava, lembrava, ruminava e engolia aquilo tudo; eles não sabiam de
nada. Havia Ritinha, menina doce, o que
ela pensaria? Será que gostaria que seu pai se casasse? Pegou seu livro, pôs-se
a ler, pra ver se distraía a mente daquele alvoroço todo. Talvez devesse ir
embora. Os pensamentos iam e vinham, não conseguia se concentrar na leitura,
por mais que o enredo fosse surpreendente.
No outro dia, Ritinha levantou cedo,
disse a Chica que iria em casa de Bernadete. Oh, menina, e as obrigações,
esqueceu? Ela disse que iria lá e voltaria antes do almoço para fazer
“tudinho”. Afinal, era sábado. Pegou a égua montou no pelo mesmo e foi,
desembestada estrada afora. Chegando lá, sua amiga nem havia acordado. Chamou
da varanda, D. Marcelina atendeu e mandou entrar. “Pode lá acordar ela!” O que havia
de tão urgente... Contou então a amiga, que havia escutado toda a conversa de
Chica e D. Bárbara, o caso é que ela nunca tinha pensado nessa possibilidade –
a de o pai se casar de novo – mas até que não achava má ideia. Mas a professora
não deu um pio, saiu calada, muda, como quem não ouvisse nada. Será que ela não
gosta do pai? Perguntou Ritinha à amiga. E o que poderiam fazer pra saber?
A manhã não deu quase tempo de
brincar e Ritinha tinha que voltar. Promessa a Chica. Foi chegando e já indo
cuidar dos afazeres. Avistou a professora, caminhando por entre o laranjal,
pensativa, acabrunhada. Não teve coragem de ir lá. Mas também precisava fazer
suas tarefas. Era uma mistura de querer e ao mesmo tempo não querer. Criança
tem dessas coisas: sentimentos confusos, nada fáceis de explicar. Quando deu
por si, Chica tocava a sineta, chamando pra almoçar. Como encarar os dois?
A professora não quis almoçar, disse estar
indisposta. E Ritinha não sabia se estava feliz, mas, pelo menos aliviada, sim.
Chica mais tarde bateu à porta dela. Oh, Dona Bárbara, a senhora está melhor?
Quer que eu prepare alguma coisa? Um chá? Respondeu-lhe com voz miúda de quem
não quer conversa que não queria nada e que estava bem. A verdade era que tinha
fome, o estômago chegava a doer, mas faltava era coragem de enfrentar os fatos
e os sentimentos.
Dia seguinte, domingo, dia de missa.
Como não sair do quarto? A menina e seu
pai estavam enfatiotados para seguir o ritual do principal dia da semana,
aquele dedicado ao Senhor. Contudo, D. Bárbara não aparecia e, intrigados,
pensaram que ela poderia ter adoecido. Ritinha, impaciente e preocupada, foi
até lá. Chamou, chamou, mas não ouviu nem um pio. Voltou e disse ao pai, ela
não me respondeu. Chica também estava toda elegante no seu único vestido
enfeitado, pronta pra ouvir a missa de Padre Alberto.
Quando chegaram da missa, depois de
muita conversa na porta da igreja, falatório sobre política, sobre a quermesse,
sobre o dia de Santo Agostinho, a festa da comunidade, cada qual procurou o que
fazer. Ritinha trocou o vestido rosa claro por um de brincar e perguntou ao pai
se poderia ir ao rio, a cheia deixava-o mais bonito, caudaloso, rico. E esse
era um dos divertimentos dela, passar na pinguela, molhar os pés, as mãos... sentir
aquela força que vinha da natureza.
Seu Savério ligou o radinho à pilha
para ouvir as notícias, enquanto se refestelava na cadeira de balanço de palha,
que havia pertencido a seu avô e passara a seu pai e agora era dele. Tomava um
refrescante suco de graviola, que Chica lhe servira, a fruta do quintal mais
antiga que havia naquela fazenda, também era dos tempos idos do seu avô.
Pensativo, veio na memória, a professora. Ou melhor, veio no coração. Lembrava das
conversas e das risadas frouxas, dos roçares displicentes e dos olhares
lânguidos. será que era imaginação? Será? Bem, ia lá ver o que estava
acontecendo e abriria o coração à moça. Sabia que a diferença de idade poderia
ser um problema.
A porta estava aberta, mesmo assim
bateu. Ninguém respondeu, nada, nenhum barulho. Entrou, cuidadosamente,
temeroso de encontrá-la, sem disposição para ouvi-lo. Eis que tem a grata
surpresa de encontrar vazio o aposento, sem nada. Indagou-se onde estariam os
pertences dela. Olhou de repente para a cama e viu um papel dobrado. Em letras
miúdas, um bilhete curto, escrito às pressas, era o que parecia, de pronto.
Abriu-o e leu: “Caro, Senhor Savério, tive que partir. Desculpe-me não poder me
despedir. Um beijo em Ritinha.” Essas palavras foram assimiladas de forma a
corroer o estômago. E ele se perguntava por que não havia esperado o que era
tão urgente.
Quando Ritinha chegou do rio para o
almoço e soube do ocorrido, ficou desolada. Perdera a professora e perdera a
mulher que poderia casar-se com o pai. Eram duas perdas em uma. A menina lamentou-se por demais. Quem haveria
de ajudá-la a ler aquele livro? “Sob tintas azuis” ficaria guardado. Quem lhe
ensinaria todos os segredos do universo? Quem lhe explicaria a história do seu país?
Mas seu pai também estava inquieto e cheio de questionamentos. Outrora, deveria
ter sido mais firme em suas atitudes e mais claro em seus sentimentos. O que
fazer agora, se ela viera pelo anúncio?
Dias se passaram. Meses se passaram.
Anos se passaram. Ritinha estava completando 15 anos, era moça feita. Linda e
inteligente, mas teimosa que só. Cismara de que o vestido deveria ser comprado
na cidade e não havia quem a fizesse mudar de ideia. O pai faria a sua vontade.
Foram no Ford novinho do pai, vermelho, reluzente ao sol. Os negócios iam bem.
O gado de corte estava dando lucro e a lavoura de algodão também.
Eram dez horas da manhã mais ou
menos, quando chegaram à loja. Ritinha sabia exatamente o que queria, disse à
atendente, detalhadamente, como gostaria do vestido. A moça anotou tudo e em
seguida tirou as medidas dela. Avisou-lhe que em três dias poderia vir fazer a
primeira prova. Saiu de lá toda fagueira. Chamou o pai para ir à confeitaria,
sabia que haviam inaugurado uma recentemente. Comeram um delicioso bolo de
nozes, salpicado de açúcar de confeiteiro, cujo sabor era inigualável,
acompanhado de um café encorpado.
Ao saírem, a moça vê, do outro lado
da rua, a antiga professora, andava com um rapaz a seu lado, que deveria ter a
sua mesma idade, entre 15 e 16 anos. Ela balançou as mãos, gesticulou e a
chamou, porém havia muitos transeuntes e a outra não ouviu. Ritinha fez menção
de sair correndo, mas o pai a deteve. Disse-lhe, ressentidamente, ela não quis
ficar lá e nem ao menos se despediu de nós. Deixe pra lá. Além disso, um
agravante: estava acompanhada.
Bárbara fugiu aflita pelo meio da
multidão, não queria reencontrá-los, não queria dar explicações, não queria
reviver emoções. Era só isso. Seu filho não entendeu nada. Por que fugiu? Ora,
não fugi, do que está falando? Chegou em casa e foi direto para o quarto, a
cabeça doía, latejava agora. Como poderia explicar o que fez, ou melhor, não
queria explicar, a vida já lhe tinha cobrado muito.
Na fazenda, tarde da noite, Ritinha
sentava com seu pai na varanda, vendo a lua e admirando o céu pontilhado de
estrelas, pensava em sua festa, nos quitutes que Chica e D. Mercedes fariam, no
baile. Mas, também sabia que seu pai ficara importunado com a visão de D.
Barbara. Ela ainda se lembrava daquela conversa que ouvira entre Chica e a
professora. Resolveu perguntar: Pai, o senhor gosta da professora Barbara? Ora
bolas, que assunto é esse agora, Ritinha? Vou dormir, levantou-se, rapidamente,
atravessou a sala e dirigiu-se ao seu quarto.
Ritinha ainda ficou por um tempo ali, com a
cabeça fervilhando de pensamentos. Quando foi para o quarto, já havia traçado
um plano, mas precisaria da ajuda de Bernadete.
Amanheceu um sábado chuvoso, aquela
chuva manhosa, fininha e um friozinho – que a vontade era ficar na cama. Mas
Ritinha pulou da cama, tomou um café ligeiro, com a broa de milho, que ainda
estava quentinha, Chica acabara de tirar do forno. Montou na égua e partiu. A
preta ainda gritou: Menina, vai pegar um resfriado. Meu Deus, que desassossego
é esse tão cedo!? Seu Savério veio logo a seguir. Sentou, tomou seu café, sem
dar um pio, além do bom dia. E a velha ficou matutando o que é que essa gente
tinha. Porque conhecia aqueles dois demais, tanto, que qualquer mudança no
comportamento, ela acendia o alerta. Aí, tem. Precisava assuntar isso. Foi até
o galinheiro, escolher galinha gorda, boa de matar, porque amanhã era domingo e
dia de fazer ao molho pardo.
Ritinha chegou era por volta das dez
horas, de cara matreira, como quem houvesse aprontado algo e a preta viu
aquilo. O que é que você tá aprontando, menina? Por que saiu daqui tão cedo e
desembestada na égua? A pobre deve tá cansada, que já é velha que nem eu. Mas a
menina fez de boba e disse que ia cuidar das obrigações. Perguntou pelo pai. E
descobriu que ele estava cuidando do gado, desde cedo, logo depois que ela
saíra.
Amanhã iria cedo à venda, junto com a amiga,
antes da missa. Ninguém perceberia.
Era de manhãzinha, quando Ritinha
acordou. O galo Açafrão cantava no galinheiro. O sol estava começando a
despontar atrás da colina, um tom de amarelo-alaranjado se desmanchava no céu.
O dia ia ser quente. Tirou a camisola, vestiu o vestido floral de rosas
pequeninas, próprio de domingo, escovou os dentes, penteou o cabelo, amarrando
uma fita no cabelo pra combinar, calçou os sapatos e seguiu pra cozinha.
Chicaaaaaa, o que você tá fazendo? Que cheiro bom é esse? E ela, antes de
responder, perguntou: Uai, por que a menina acordou com as galinhas hoje? É
broa de milho, sô! Já tirei do forno. Menina, espera esfriar um pouco, vai
fazer mal, comer assim. Mas Ritinha não deu nem ouvidos, pegou um pedaço enorme
e saiu a comer terreiro afora. Chica ainda saiu atrás, mas a menina já estava
longe, perto da porteira, nem adiantava gritar.
No final da mata, Bernadete esperava
por ela, conforme o combinado. Seguiram, então, juntas, para a venda do
Salustiano. Iam encontrar o Preto Velho pra conversar com ele, que sempre sabia
de tudo, pra ver se descobriam o que podia ter acontecido com a professora.
Ficaram lá por uma hora, nada de ele chegar; já estavam desistindo e indo
embora, quando ele apontou na curva da estrada. Sua sabedoria e seus conselhos
eram estimados por todos da região, pobre ou rico, branco ou preto, mulher ou
homem; a maioria das pessoas gostava de procurá-lo pra resolver problemas, de
ordem espiritual, amorosa. Enfim, de tudo quanto era jeito.
As meninas se aproximaram dele. Um sorriso
largo, de poucos dentes se abriu e perguntou logo: O que é que essas meninas
precisam? Elas foram logo despejando tudo, tudo que sabiam! O homem ouviu,
calado, sem fazer pergunta alguma, interessado na história. Quando as moças
terminaram, ele disse, simplesmente: isso é caso de amor mal resolvido. E elas perguntaram
como poderiam resolver a questão. O Preto Velho respondeu-lhes que o jeito era
ir à cidade e buscar a tal da moça. Mas e se ela não quisesse? Poderiam
inventar uma história de que o Seu Savério estava muito doente e queria muito
falar-lhe. Mas elas não sabiam onde exatamente encontrá-la. Isso seria fácil,
segundo ele. Afinal, a cidade nem era tão grande e professora não haveria de
ter muitas. Mas como inventariam uma desculpa para irem sozinhas lá? Bem, tinha
o vestido do aniversário. Agradeceram ao Preto Velho e voltaram correndo a
tempo de ir pra missa. Seu pai estava impaciente, pois não gostava de se
atrasar. Bernadete tomou o rumo de casa e Ritinha também.
Chegaram à igreja e o pai estava
calado, sorumbático; Ritinha sabia que ele não estava feliz, já se passara
tanto tempo desde que sua mãe morrera e a única vez que o vira alegre fora
quando a professora estava lá, morando na fazenda. Ela parecia um alento a seu
coração, mesmo sem acontecer nada, sem esperanças... ele estivera a sorrir de novo,
naquele tempo. Depois que ela se foi, de repente, ele se acabrunhara novamente.
Não gostava de ver o pai daquele jeito.
Quando chegaram da missa, após
aquele bate-papo com amigos e velhos companheiros, dirigiram-se para casa, a
pé. Ritinha puxou assunto. Pai, quando mesmo voltaremos à vila para buscar o
vestido? Fingiu não saber, apenas para puxar a prosa e ver se conseguia saber o
que se passava naquele coração solitário. Seu pai era moço ainda, tinha o
direito de se casar de novo e ser feliz. E de supetão, perguntou: Pai, por que
será que a professora não nos atendeu aquele dia? Por que será que ela foi
embora tão repentinamente, não se despediu? Não sei. Foi a única resposta que
abstraiu. Cada vez mais entristecido demonstrava estar.
Após o almoço delicioso feito pelas
mãos mágicas de Chica: ora por nobis, colhido ali perto do galinheiro, um
pernil assado, do leitãozinho morto há alguns dias e uma polenta fumegante com
queijo coalho por cima; Ritinha se deitou na rede para ler aquele romance, que há
muito havia esquecido em meio aos brinquedos de criança, aquele comprado na mão
do mascate. A história era de um mulato que se casava com uma mulher branca,
contra tudo e todos os preconceitos.
Na segunda-feira, Ritinha pôs-se de
pé, eram cinco da manhã, Açafrão – com todo o seu esplendor alaranjado - mal
tinha dado o primeiro alarde do dia. Mas Chica já estava nos afazeres e
colocando a mesa do café. Tomou seu café com um leite bem quente, pura nata,
como ela saboreava, comeu o biscoito de polvilho e já foi logo avisando à preta
que ia ter que sair pela manhã, iria na casa de Bernadete, pois tinha que
ajudá-la em uma tarefa.
Pegaram a charrete do pai de
Bernadete e seguiram pra cidade, o caminho conheciam de cor. Ao chegar lá,
foram direto à confeitaria, perguntaram para o garçom se sabia de uma professora
que vinha sempre ali, descreveram-na de modo detalhado. E o moço logo falou que
sim, que sabia quem era, inclusive, disse que ela passava todos os dias –
exceto sábado e domingo - por volta das nove horas, acompanhada de um rapazote.
As meninas ficaram excitadíssimas, eram oito e quarenta. Agradeceram-no pela
informação e se sentaram à mesa; Bernadete pediu uma croissant de queijo com presunto e ameixa, Ritinha pediu sua
adorada torta de nozes, ambos acompanhados de um delicioso chocolate quente.
Não demorou muito e viram adentrar
ao salão, a professora; estava só, usava um vestido branco de poás azuis, um
sapato azul e um laço de fita no cabelo da mesma cor. As meninas ficaram
inquietas, esperaram-na se assentar e fazer o pedido. Assim que isso aconteceu,
foram até a mesa. A professora se
assustou, não esperava aquele encontro e muito menos o queria. Fez menção de se
levantar, mas Ritinha segurou seu braço e firmemente falou-lhe: Por que nos
abandonou, sem ao menos se despedir? Acho que mereço pelo menos uma explicação.
Barbara abaixou a cabeça e pôs-se a chorar. As meninas não sabiam o que fazer e
ficaram totalmente desnorteadas. Pediram ao garçom um copo de água com açúcar.
Após um tempo, que pareceu uma eternidade às duas meninas, Barbara começou a
contar-lhes sua história.
“Eu tinha apenas quatorze anos,
quando me apaixonei perdidamente por um rapaz, este me prometeu e jurou amor
eterno. Entretanto, ele partiu em busca de seu sonho e não voltou, morreu,
vítima de uma doença desconhecida. Só que quando ele se foi, eu carregava no
ventre um filho dele. Fui expulsa de casa. Bem, para resumir, deixei meu filho
em um lugar seguro e não desisti do meu sonho de estudar, tornei-me professora.
Após sair da fazenda, busquei meu filho e hoje vivo com ele. Foi isso que
aconteceu e por isso eu fugi, porque estava me apaixonando por seu pai,
Ritinha. Como poderia contar-lhe tudo isso? Ele não iria me querer, não, eu,
uma mulher desonrada. Sei que não tenho esse direito”
As meninas não abriram a boca
enquanto a professora falava. Ficaram pasmas com a história. Entretanto,
passado o tempo necessário da assimilação daquilo tudo, Ritinha disse-lhe,
calmamente, acho que você merece sim ser feliz. Meu pai estava tão feliz,
quando você morava lá. Você o fazia feliz. Acho que deveria lhe contar a
história também. Tenho certeza de que ele entenderá o que aconteceu e, quem
sabe, poderemos ser uma grande família, ganharei até um irmão.
Bárbara prometeu a elas que iria
pensar a respeito, mas sentia muita vergonha de contar a história ao Seu
Savério, tinha medo da sua reação. Ritinha, por sua vez, garantiu-lhe que o pai
era um homem muito generoso e saberia compreendê-la. E fez uma pergunta: Você
gosta do meu pai? Bárbara disse que depois do primeiro amor de sua vida e pai
de seu filho, nunca mais havia se interessado por homem algum, a não ser o seu
pai. Ritinha ficou radiante e disse-lhe que tudo daria certo. Acrescentou que
gostaria de convidá-la para sua festa de 15 anos, seria no próximo sábado, às 19h:00min,
aliás, ela e o filho. Por sinal, como ele se chamava? Ricardo, esse era o nome
do rapaz, que estava com 14 anos também. Ela prometeu pensar com carinho.
Era sábado, dia 20 de setembro de
1932, o céu coroava o dia com matizes de azul, não havia uma nuvem sequer, era
a esperada festa em que Ritinha debutaria. Estava ansiosa, menos pela festa e
mais pelo fato de esperar que seus convidados especiais chegassem. As mesas
estavam arrumadas com ramos de flores silvestres embaixo de uma bela tenda
branca. Do outro lado, havia uma banda de música que tocava valsas e sonatas, ao
som de violinos e outros acordes advindos de outros instrumentos. O bolo era de
três andares, com rosas nas bordas, uma verdadeira escultura.
Bernadete tentava acalmar a amiga,
dizendo que tudo daria certo e que ela aproveitasse a festa, pois tudo aquilo
era para ela. Ela havia feito o que era possível.
Às 19h:20min, a professora Bárbara
chega, acompanhada de seu belo filho. Ritinha não se conteve de tanta
felicidade. Aproximou-se deles e cumprimentou-os. Nesse exato momento, seu pai
se vira e de longe, vislumbra a silhueta da moça, que trajava um belo vestido
azul anil. Aproxima-se e também os cumprimenta, dando-lhes as boas-vindas.
Ritinha se adianta, convida Ricardo para dançar e, sorrateiramente, sai,
dizendo que ambos tinham muito a conversar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário