sábado, 29 de maio de 2021

Vida na pandemia

 

Vida pós-pandemia

Retorno às aulas, retorno à escola. Mas não à rotina. Sentimentos conflituosos nos regem neste momento. Indagações são feitas a todo instante – a maioria fica sem respostas, pelo menos satisfatórias. É arriscado? Não é? Teremos condições de trabalho? Os estudantes virão?

A vida segue. E seguiremos, através de regras novas, de ações diferentes das de antes, de modos de vida alternados, de protocolos a seguir. Enfim, a vida continua. Tem que continuar.

Vivemos dias iniciais pandêmicos, em que nos apavorávamos com o novo, não tínhamos um norte a seguir, não havia previsões. Aprendemos a nos virar e a nos adequar a esta realidade que se avizinhou e se apresentou, sem prazo de validade. Não fazíamos ideia do que realmente nos aguardava. E agora? Ainda não sabemos. Tudo mudou. Nada será igual.

O mundo é outro. A engrenagem social e econômica rangeu seus alicerces, quase desmoronou. Muita coisa emperrou. E tudo virou política. Você é de esquerda ou é “liberal”? Resumiu-se a essa dualidade inconsciente. Ficamos sem bom senso, sem criticidade. O espelho do executivo nacional refletiu nessa postura bilateral e irracional, muitas vezes.

Aproxima-se o pleito. E, nós, professores, estamos aqui, na escola, fingindo que resgataremos, heroicamente, um ano, que já se foi, que já era. Tentando promover uma educação à custa de uma aparente segurança sanitária. Bônus. Eleição. Mera coincidência. Nossa saúde física e mental não têm a menor importância; afinal, às vésperas das eleições, o que importa é manter o eleitor feliz. Mais uma vez: pão e circo.

Carla Moreira da Cunha – 06/10/2020

 

Convento da Penha

 

Do alto, a cuidar de nós

Majestoso e imponente está ele, no alto de uma colina, como se tomasse conta da baía e do povo que lá embaixo se encontra. Os navios que aqui aportam têm o privilégio de vê-lo de bem longe, muito antes de chegarem às docas. Ele parece mesmo tomar conta de tudo. Onipresente, onisciente.

O fascínio que exerce, mesmo àqueles que não dividem com ele a mesma crença, é inegável. Sua beleza e seu encanto não são apenas arquitetônicos ou históricos. Há algo místico que sobredoura a sua aura. Uma difícil explicação, típica de tudo aquilo que permeia o imaginário popular, do qual se busca uma razão, mas são tantas as cogitações...

Desde o século XVI, quando vieram pra cá, os jesuítas, em sua missão evangelizadora, para tentar “salvar as almas” daquele povo gentio, habitante típico da região; um frei espanhol, chamado Pedro Palácios, trouxe já consigo, na viagem, histórias repletas de lendas e fé.

A fama do religioso a respeito de suas virtudes já era conhecida, antes de sua chegada; e contratempos da viagem para o Brasil, como uma tempestade que levaria a nau ao naufrágio, só fizeram crescer o respeito e a devoção que havia por essa figura emblemática.

Em seu início por terras capixabas, logo buscou refúgio no caminho do topo do penhasco, no qual, futuramente, erguer-se-ia o Convento da Penha. Num primeiro nicho, no sopé da montanha, conta a lenda, Pedro Palácios instalou-se e surgiu a Gruta de Frei Palácios. Fundou sua primeira capela num platô, próximo à praia. Mais tarde, a capela foi para o alto da montanha. E de lá, não saiu, cresceu, tomou forma, sendo hoje o orgulho, não só da comunidade católica, mas de todo o povo do Espírito Santo.

A valorização desse patrimônio histórico-cultural vai além das fronteiras do estado, pois ele faz parte da história nacional, rememora e representa fatos de interesse comuns a todo cidadão que deseja conhecer um pouco mais sobre seu país. Um período de riquezas que nos legou identidade cultural incomum.

No fim do ano de 2007, vislumbrou-se um monumento ornado com uma iluminação digna de quem comemora seus 450 anos. À noite, resplandecia, em sua grandiosidade e, de longe, era possível avistá-lo, imponente, sobre a baía, a tomar conta, como sempre, de nós, aqui, de baixo. Como se fosse um reduto especial, em que Deus se encontra, especialmente em terras capixabas, ele está lá, no alto.

 

Meu primeiro conto

 

12/08/2020

Sob tintas azuis

            O frio dói nos ossos assim como as preocupações doem na alma, não há como escapar de nenhum dos dois. Naquele canto do país, de temperaturas amenas, era assim o ano todo, praticamente.

            Uma amoreira cheia de flor encantava o caminho por onde passava a meninada. Era primavera. Dois cães ladravam e punham as galinhas a correr. Mas era só de brincadeira, pois no fundo, toda a bicharada pertencia à mesma família, aninhavam-se, protegiam-se.

            Por um momento, a menina sorvia aquele ar, como quem saboreia um delicioso sorvete de frutas, no sol de quase dezembro. Na estação das flores o aroma delas inebriava os corações, principalmente, dos cansados e aflitos, aqueles sem esperança se apegavam a essa doce fragrância para tornar a vida e o caminho aprazíveis. Ela também.

            Saía para brincar, depois, claro, de cumprir todas as suas obrigações: escovar as botas do pai, buscar lenha, dar milho às galinhas – nesse momento, ela se divertia com as galinhas d’angola e seu cocoricar, mas também com o velho galo Açafrão (porque era amarelo, como o sol). Ainda havia de vê-lo na panela um dia, pois Chica vivia prometendo. Ele se sentia o dono do galinheiro, só porque era o mais velho, mas também - tinha seu porte, majestoso, e reinava mesmo.

            Quando chegava ao curral, pulando a cerca, pois não tinha paciência de ir até a tronqueira - era mais fácil assim – acariciava a Morena, sua vaca predileta, e chamava-lhe pelo nome, conversava, trocava confidências. Depois, tocava os bezerros para o pasto de cima. Ela não entendia muito bem isso: porque era preciso separar os filhos de suas mães. Mas cumpria sua tarefa, sem reclamar, contudo, pensativa. No fundo, eram como ela.

            Saía correndo então, direto pra casa de Bernadete. Às vezes, chegava lá e sua amiga ainda estava cumprindo seus afazeres. Ela esperava, pacientemente, ajudando no que podia. Quando saíam para o pomar para brincar, iam decidindo pela trilha, de que seria a brincadeira do dia. Sempre se poderia inovar, mas achavam bom repetir...

            Tinha vez que o brincar era achar os murundus de formiga saúva, quem achasse mais, vencia. Mas era preciso manter distância, porque aquela picada doía. Outras, saíam pelo pasto para encontrar pés de plantas desconhecidas – mas isso era difícil, quase impossível – pois já haviam percorrido aquelas veredas tantas vezes e de tudo um pouco conheciam. E quando encontravam algo desconhecido, levavam para Preto Velho, um antigo senhor das redondezas, filho de escravos, sabedor das coisas da vida; além de contar boas histórias para quem tivesse tempo e ouvidos.

            Em algumas oportunidades, podiam andar a cavalo; selavam a égua Joinha e o cavalo Zenão; porém, isso era muito raro acontecer. Porque sempre alguém precisava deles na lida. Entretanto, estes dias eram muito comemorados, saíam a galope, iam longe, além das fronteiras da fazenda. Os animais já as conheciam e pareciam sentir prazer em carregá-las por todos os lados. Eram dispostos, contudo, mansos.

            Ocorreu que um dia chegou um rapaz à fazenda, vendendo um monte de bugigangas. Todos queriam ver, eram novidades, coisas da cidade, que moça da roça nunca tinha visto nem ouvido falar. Ritinha olhou aquela coisarada com curiosidade; espelhos pequenos que se carregava na bolsa, rouge para pintar as bochechas das moças feitas, relógios de algibeira e de pulso (última moda lá na capital, vindo da Europa, era o que dizia o mascate), batom também era uma raridade naquelas bandas, tecidos variados – lisos e estampados, finos e grossos. Dentre tudo, o que encheu os olhos da menina foi um pequeno livro. Papai me compra ele – mas você ainda nem sabe ler. Um dia saberei.

            Ela se afeiçoou àquelas letras miúdas, àquela capa dura de couro marrom. Não sabia o que continha ali, mas no seu coração a certeza é de que gostaria daquela história, cujo título apenas era do seu conhecimento: Sob tintas azuis. Falou para a amiga sobre o livro, mas a mesma não se interessou muito, achava enfadonhas as letras.

            Dois invernos se passaram. Finalmente Bambuzal ia ter uma escola, ali, bem pertinho dela. E Ritinha só pensava na mágica que seria aprender a ler e descobrir o que havia dentro daquelas páginas já um pouco amareladas do tempo ido. Sob tintas azuis não saía da sua cabeça.

            Um fazendeiro reuniu a todos da região para construírem a esperada escola. Algumas mulheres diziam à boca pequena: “Pra que isso? Quem quer menino na escola? A gente precisa é trabalhar, estudar é bobagem!” Graças a Deus, não era assim que pensava seu Savério, pois a menina contava os dias, as horas, os minutos e os segundos para a escola ficar pronta. Quando estava tudo em ordem, com a lousa, as carteiras, a mesa da professora e alguns outros objetos; faltava o principal: a professora. Quem havia de querer vir para aquele fim de mundo para ensinar o beabá às crianças? E buscaram na cidade grande, Montes Azuis, alguém que pudesse prestar esse favor à comunidade de Bambuzal. Seu Alfredo andou, escarafunchou, subiu e desceu; nada encontrou. Voltou, sem a professora.

            Ritinha sentiu-se murchar de tanta tristeza, chegou até a ter febre. Chica, a cozinheira, dizia que febre sem doença é a pior coisa pra menino pequeno. Ficou dias prostrada, não conseguia sair da cama.

            Resolveram colocar um anúncio no jornal à procura da candidata para lecionar naquelas bandas: o salário não era ruim e havia ainda moradia e comida de graça. Demorou-se duas semanas e apareceu uma moça, de tez amorenada, olhos verdes e astutos, nem baixa nem alta, estatura mediana. Tinha a cintura fina e os quadris arredondados. Apresentou-se à fazenda de seu Savério, cuja viuvez lhe esticara as rugas e lhe dava um ar de sempre quase tristeza. Porém, recebeu a moça, de seus vinte e poucos anos, muito bem e com alegria. Ritinha – milagrosamente – curou-se. Ela era de Ouro Preto, estudara em Belo Horizonte as Letras Vernáculas, formara-se há apenas seis meses e estava justamente à procura de uma oportunidade. Fora um primo, que passara por Montes Azuis e lera o anúncio, que lhe dera a boa notícia. Indagou, rapidamente, se havia alguém já se apresentado. Disseram-lhe que não. Ficou rubra de felicidade.

            Professora Bárbara era só alegria, realizaria seu grande sonho: ensinar. No primeiro dia, apenas Ritinha, Bernadete e mais três meninos apareceram. Entretanto, ela não se deixou abater, apresentou-se aos alunos e perguntou-lhes sobre suas vidas. Ritinha trouxera o livro consigo, fez questão de mostrar à mestra. Mas ainda havia um longo caminho a ser percorrido, letra por letra, sílaba por sílaba.

             O quarto de moça ficava ao lado da cozinha, havia sido construído com outra intenção, de guardar o que era colhido ali, na fazenda. Instalaram-na bem, com uma boa cama de madeira de lei, um criado mudo e uma mesa. Ainda fizeram um banheiro agregado ali. Era pessoa modesta e reservada.

            Ritinha recebeu a recomendação de que não molestasse a moça em seus momentos de folga; mas de nada adiantou, pois sua imensa vontade de aprender, de saber mais e mais, fazia dela uma adorada discípula. E Bárbara gostava disso, dessa imensa e inestimável fome do saber. Tornaram-se muito próximas.

            Em pouco tempo, coisa de dois meses, no máximo, Ritinha já lia. Pegou então o livro de capa de couro marrom e começou a lê-lo, porém, as palavras eram difíceis, desconhecidas e acabou desanimando. Ficou tristíssima, decepcionada, não sabia ao certo, se era com ela ou com o livro.

            Triste, foi à escola, a professora logo notou que havia algo errado. Sondou a menina e descobriu o motivo. Disse-lhe que lhe daria um outro livro, mais apropriado a sua idade.  Desse modo ocorreu.

            Aos poucos, a fama da boa professora se espalhou e ela teve muitos pupilos; chegavam, às vezes, um tanto desconfiados, sem muito interesse, mas ela ia ganhando a confiança dos moleques e das meninotas. Os pais também se mostraram satisfeitos com a sabedoria que seus filhos começaram a demonstrar em casa, liam tudo em todo lugar e já faziam as contas básicas de maneira rápida.

            Uma tarde de primavera, Bárbara e seus pupilos iam fazer um passeio com piquenique, próximo ao Rio dos Bagres; isso tinha sido combinado há tempos, era para comemorar o aniversário de dois meninos gêmeos: Eduardo e Marcos. Cada um levaria seu farnel para contribuir com o banquete. Aconteceu que, justamente neste dia, o pai de Ritinha adoeceu. Ela – muito cheia de chamegos - não quis ir, não quis sair do lado de seu pai de modo algum. Era muito apegada a ele. Desde que a mãe morrera, ela ainda mais se aproximara dele.

            Não havia como a professora cancelar o passeio, afinal, a criançada já estava se programando para isso havia tempos. Tudo seguiu seu curso. A filha amorosa a cuidar do pai febril e prostrado, ao lado de sua cama; a professora com seus meninos a investigar a natureza e a usufruir de toda aquela beleza. A passarinhada cantava no terreiro no fim do dia, parecendo anunciar que os últimos raios de sol se punham naquele momento. Instante de beleza.

            Lá pelas tantas, a professorinha chega, parecendo cansada. Entrou na casa e logo perguntou à velha Chica se Seu Savério havia melhorado. A negra lhe respondeu que ainda ardia em febre, mas não queria que se chamasse o doutor. Aceitava de bom grado as ervas preparadas por ela, mas nada de médico. Bárbara se adiantou, pegou a égua Joinha e rumou para o povoado atrás de Dr. Joaquim. Chegou lá, esbaforida, assim como o animal. Viagem perdida, o doutor havia ido socorrer uma mulher que estava nos dias de ganhar seu bebê.  Na região, só havia ele. Ocorreu a ela, passar na botica, quem sabe o Seu Matias poderia ajudá-lo. Desta forma, tudo transcorreu.

            Seu Savério, o senhor está é de espinhela caída – disse o boticário, apoiado na sua longa experiência... E antes, só havia ele para cuidar daquela gente. Receitou suas ervas e suas pílulas homeopáticas e garantiu que em uma semana ele estaria pronto pra lida novamente.

            Fato é, que assim aconteceu, Seu Savério, em dois tempos, ficou saradinho. De quebra, ainda ficou muito amigo da professorinha, agradecido que só. Passaram a prosear todos os dias. Descobriu-se cheio de energia para a vida. Aos poucos, foi nascendo dentro do peito, um sentimento desconhecido por aquela moça tão graciosa. Da parte dela, aquele sentimento crescia e era novidade, pois há tempos não sentia essas emoções, tudo ficara em um passado longínquo. Só estudara e trabalhara, nada mais.

            Chica, velha matreira e experiente das histórias de amor, logo arqueou as sobrancelhas e deduziu – Isso vai dar em casório. Pensou: será que a menina Ritinha há de gostar da novidade? Mas pegou seu tacho e foi lavar a taioba, pois com ou sem casamento, o almoço tinha que estar pronto às 11h:00min. De tardinha, quando a professora chegou, antes de ela entrar em seu quarto; Chica resolveu assuntar. Como quem não quer nada, com aquela prosa de cerca-lourenço, foi indagando a moça. A senhora é moça nova e bonita, não tem precisão de ficar no meio desse mato, longe da cidade. É estudada. A senhora sabe dos sentimentos do patrão, né? Ele é homem que vivia no sofrimento, porque perdeu a mulher logo que Ritinha nasceu. Mas olha que agora ele é só alegrias.Voltou a sorrir. Professora Bárbara saiu de fininho, fingiu que aquela prosa toda não era com ela.

            À noite, em seu quarto, a professora pensava, lembrava, ruminava e engolia aquilo tudo; eles não sabiam de nada.  Havia Ritinha, menina doce, o que ela pensaria? Será que gostaria que seu pai se casasse? Pegou seu livro, pôs-se a ler, pra ver se distraía a mente daquele alvoroço todo. Talvez devesse ir embora. Os pensamentos iam e vinham, não conseguia se concentrar na leitura, por mais que o enredo fosse surpreendente.

            No outro dia, Ritinha levantou cedo, disse a Chica que iria em casa de Bernadete. Oh, menina, e as obrigações, esqueceu? Ela disse que iria lá e voltaria antes do almoço para fazer “tudinho”. Afinal, era sábado. Pegou a égua montou no pelo mesmo e foi, desembestada estrada afora. Chegando lá, sua amiga nem havia acordado. Chamou da varanda, D. Marcelina atendeu e mandou entrar. “Pode lá acordar ela!” O que havia de tão urgente... Contou então a amiga, que havia escutado toda a conversa de Chica e D. Bárbara, o caso é que ela nunca tinha pensado nessa possibilidade – a de o pai se casar de novo – mas até que não achava má ideia. Mas a professora não deu um pio, saiu calada, muda, como quem não ouvisse nada. Será que ela não gosta do pai? Perguntou Ritinha à amiga. E o que poderiam fazer pra saber?

            A manhã não deu quase tempo de brincar e Ritinha tinha que voltar. Promessa a Chica. Foi chegando e já indo cuidar dos afazeres. Avistou a professora, caminhando por entre o laranjal, pensativa, acabrunhada. Não teve coragem de ir lá. Mas também precisava fazer suas tarefas. Era uma mistura de querer e ao mesmo tempo não querer. Criança tem dessas coisas: sentimentos confusos, nada fáceis de explicar. Quando deu por si, Chica tocava a sineta, chamando pra almoçar. Como encarar os dois?

             A professora não quis almoçar, disse estar indisposta. E Ritinha não sabia se estava feliz, mas, pelo menos aliviada, sim. Chica mais tarde bateu à porta dela. Oh, Dona Bárbara, a senhora está melhor? Quer que eu prepare alguma coisa? Um chá? Respondeu-lhe com voz miúda de quem não quer conversa que não queria nada e que estava bem. A verdade era que tinha fome, o estômago chegava a doer, mas faltava era coragem de enfrentar os fatos e os sentimentos.

            Dia seguinte, domingo, dia de missa. Como não sair do quarto?  A menina e seu pai estavam enfatiotados para seguir o ritual do principal dia da semana, aquele dedicado ao Senhor. Contudo, D. Bárbara não aparecia e, intrigados, pensaram que ela poderia ter adoecido. Ritinha, impaciente e preocupada, foi até lá. Chamou, chamou, mas não ouviu nem um pio. Voltou e disse ao pai, ela não me respondeu. Chica também estava toda elegante no seu único vestido enfeitado, pronta pra ouvir a missa de Padre Alberto.

            Quando chegaram da missa, depois de muita conversa na porta da igreja, falatório sobre política, sobre a quermesse, sobre o dia de Santo Agostinho, a festa da comunidade, cada qual procurou o que fazer. Ritinha trocou o vestido rosa claro por um de brincar e perguntou ao pai se poderia ir ao rio, a cheia deixava-o mais bonito, caudaloso, rico. E esse era um dos divertimentos dela, passar na pinguela, molhar os pés, as mãos... sentir aquela força que vinha da natureza.

            Seu Savério ligou o radinho à pilha para ouvir as notícias, enquanto se refestelava na cadeira de balanço de palha, que havia pertencido a seu avô e passara a seu pai e agora era dele. Tomava um refrescante suco de graviola, que Chica lhe servira, a fruta do quintal mais antiga que havia naquela fazenda, também era dos tempos idos do seu avô. Pensativo, veio na memória, a professora. Ou melhor, veio no coração. Lembrava das conversas e das risadas frouxas, dos roçares displicentes e dos olhares lânguidos. será que era imaginação? Será? Bem, ia lá ver o que estava acontecendo e abriria o coração à moça. Sabia que a diferença de idade poderia ser um problema.

            A porta estava aberta, mesmo assim bateu. Ninguém respondeu, nada, nenhum barulho. Entrou, cuidadosamente, temeroso de encontrá-la, sem disposição para ouvi-lo. Eis que tem a grata surpresa de encontrar vazio o aposento, sem nada. Indagou-se onde estariam os pertences dela. Olhou de repente para a cama e viu um papel dobrado. Em letras miúdas, um bilhete curto, escrito às pressas, era o que parecia, de pronto. Abriu-o e leu: “Caro, Senhor Savério, tive que partir. Desculpe-me não poder me despedir. Um beijo em Ritinha.” Essas palavras foram assimiladas de forma a corroer o estômago. E ele se perguntava por que não havia esperado o que era tão urgente.

            Quando Ritinha chegou do rio para o almoço e soube do ocorrido, ficou desolada. Perdera a professora e perdera a mulher que poderia casar-se com o pai. Eram duas perdas em uma.  A menina lamentou-se por demais. Quem haveria de ajudá-la a ler aquele livro? “Sob tintas azuis” ficaria guardado. Quem lhe ensinaria todos os segredos do universo? Quem lhe explicaria a história do seu país? Mas seu pai também estava inquieto e cheio de questionamentos. Outrora, deveria ter sido mais firme em suas atitudes e mais claro em seus sentimentos. O que fazer agora, se ela viera pelo anúncio?

            Dias se passaram. Meses se passaram. Anos se passaram. Ritinha estava completando 15 anos, era moça feita. Linda e inteligente, mas teimosa que só. Cismara de que o vestido deveria ser comprado na cidade e não havia quem a fizesse mudar de ideia. O pai faria a sua vontade. Foram no Ford novinho do pai, vermelho, reluzente ao sol. Os negócios iam bem. O gado de corte estava dando lucro e a lavoura de algodão também.

            Eram dez horas da manhã mais ou menos, quando chegaram à loja. Ritinha sabia exatamente o que queria, disse à atendente, detalhadamente, como gostaria do vestido. A moça anotou tudo e em seguida tirou as medidas dela. Avisou-lhe que em três dias poderia vir fazer a primeira prova. Saiu de lá toda fagueira. Chamou o pai para ir à confeitaria, sabia que haviam inaugurado uma recentemente. Comeram um delicioso bolo de nozes, salpicado de açúcar de confeiteiro, cujo sabor era inigualável, acompanhado de um café encorpado.

            Ao saírem, a moça vê, do outro lado da rua, a antiga professora, andava com um rapaz a seu lado, que deveria ter a sua mesma idade, entre 15 e 16 anos. Ela balançou as mãos, gesticulou e a chamou, porém havia muitos transeuntes e a outra não ouviu. Ritinha fez menção de sair correndo, mas o pai a deteve. Disse-lhe, ressentidamente, ela não quis ficar lá e nem ao menos se despediu de nós. Deixe pra lá. Além disso, um agravante: estava acompanhada.

            Bárbara fugiu aflita pelo meio da multidão, não queria reencontrá-los, não queria dar explicações, não queria reviver emoções. Era só isso. Seu filho não entendeu nada. Por que fugiu? Ora, não fugi, do que está falando? Chegou em casa e foi direto para o quarto, a cabeça doía, latejava agora. Como poderia explicar o que fez, ou melhor, não queria explicar, a vida já lhe tinha cobrado muito.

            Na fazenda, tarde da noite, Ritinha sentava com seu pai na varanda, vendo a lua e admirando o céu pontilhado de estrelas, pensava em sua festa, nos quitutes que Chica e D. Mercedes fariam, no baile. Mas, também sabia que seu pai ficara importunado com a visão de D. Barbara. Ela ainda se lembrava daquela conversa que ouvira entre Chica e a professora. Resolveu perguntar: Pai, o senhor gosta da professora Barbara? Ora bolas, que assunto é esse agora, Ritinha? Vou dormir, levantou-se, rapidamente, atravessou a sala e dirigiu-se ao seu quarto.

             Ritinha ainda ficou por um tempo ali, com a cabeça fervilhando de pensamentos. Quando foi para o quarto, já havia traçado um plano, mas precisaria da ajuda de Bernadete.

            Amanheceu um sábado chuvoso, aquela chuva manhosa, fininha e um friozinho – que a vontade era ficar na cama. Mas Ritinha pulou da cama, tomou um café ligeiro, com a broa de milho, que ainda estava quentinha, Chica acabara de tirar do forno. Montou na égua e partiu. A preta ainda gritou: Menina, vai pegar um resfriado. Meu Deus, que desassossego é esse tão cedo!? Seu Savério veio logo a seguir. Sentou, tomou seu café, sem dar um pio, além do bom dia. E a velha ficou matutando o que é que essa gente tinha. Porque conhecia aqueles dois demais, tanto, que qualquer mudança no comportamento, ela acendia o alerta. Aí, tem. Precisava assuntar isso. Foi até o galinheiro, escolher galinha gorda, boa de matar, porque amanhã era domingo e dia de fazer ao molho pardo.

            Ritinha chegou era por volta das dez horas, de cara matreira, como quem houvesse aprontado algo e a preta viu aquilo. O que é que você tá aprontando, menina? Por que saiu daqui tão cedo e desembestada na égua? A pobre deve tá cansada, que já é velha que nem eu. Mas a menina fez de boba e disse que ia cuidar das obrigações. Perguntou pelo pai. E descobriu que ele estava cuidando do gado, desde cedo, logo depois que ela saíra.

             Amanhã iria cedo à venda, junto com a amiga, antes da missa. Ninguém perceberia.

            Era de manhãzinha, quando Ritinha acordou. O galo Açafrão cantava no galinheiro. O sol estava começando a despontar atrás da colina, um tom de amarelo-alaranjado se desmanchava no céu. O dia ia ser quente. Tirou a camisola, vestiu o vestido floral de rosas pequeninas, próprio de domingo, escovou os dentes, penteou o cabelo, amarrando uma fita no cabelo pra combinar, calçou os sapatos e seguiu pra cozinha. Chicaaaaaa, o que você tá fazendo? Que cheiro bom é esse? E ela, antes de responder, perguntou: Uai, por que a menina acordou com as galinhas hoje? É broa de milho, sô! Já tirei do forno. Menina, espera esfriar um pouco, vai fazer mal, comer assim. Mas Ritinha não deu nem ouvidos, pegou um pedaço enorme e saiu a comer terreiro afora. Chica ainda saiu atrás, mas a menina já estava longe, perto da porteira, nem adiantava gritar.

            No final da mata, Bernadete esperava por ela, conforme o combinado. Seguiram, então, juntas, para a venda do Salustiano. Iam encontrar o Preto Velho pra conversar com ele, que sempre sabia de tudo, pra ver se descobriam o que podia ter acontecido com a professora. Ficaram lá por uma hora, nada de ele chegar; já estavam desistindo e indo embora, quando ele apontou na curva da estrada. Sua sabedoria e seus conselhos eram estimados por todos da região, pobre ou rico, branco ou preto, mulher ou homem; a maioria das pessoas gostava de procurá-lo pra resolver problemas, de ordem espiritual, amorosa. Enfim, de tudo quanto era jeito.

             As meninas se aproximaram dele. Um sorriso largo, de poucos dentes se abriu e perguntou logo: O que é que essas meninas precisam? Elas foram logo despejando tudo, tudo que sabiam! O homem ouviu, calado, sem fazer pergunta alguma, interessado na história. Quando as moças terminaram, ele disse, simplesmente: isso é caso de amor mal resolvido. E elas perguntaram como poderiam resolver a questão. O Preto Velho respondeu-lhes que o jeito era ir à cidade e buscar a tal da moça. Mas e se ela não quisesse? Poderiam inventar uma história de que o Seu Savério estava muito doente e queria muito falar-lhe. Mas elas não sabiam onde exatamente encontrá-la. Isso seria fácil, segundo ele. Afinal, a cidade nem era tão grande e professora não haveria de ter muitas. Mas como inventariam uma desculpa para irem sozinhas lá? Bem, tinha o vestido do aniversário. Agradeceram ao Preto Velho e voltaram correndo a tempo de ir pra missa. Seu pai estava impaciente, pois não gostava de se atrasar. Bernadete tomou o rumo de casa e Ritinha também.

            Chegaram à igreja e o pai estava calado, sorumbático; Ritinha sabia que ele não estava feliz, já se passara tanto tempo desde que sua mãe morrera e a única vez que o vira alegre fora quando a professora estava lá, morando na fazenda. Ela parecia um alento a seu coração, mesmo sem acontecer nada, sem esperanças... ele estivera a sorrir de novo, naquele tempo. Depois que ela se foi, de repente, ele se acabrunhara novamente. Não gostava de ver o pai daquele jeito.

            Quando chegaram da missa, após aquele bate-papo com amigos e velhos companheiros, dirigiram-se para casa, a pé. Ritinha puxou assunto. Pai, quando mesmo voltaremos à vila para buscar o vestido? Fingiu não saber, apenas para puxar a prosa e ver se conseguia saber o que se passava naquele coração solitário. Seu pai era moço ainda, tinha o direito de se casar de novo e ser feliz. E de supetão, perguntou: Pai, por que será que a professora não nos atendeu aquele dia? Por que será que ela foi embora tão repentinamente, não se despediu? Não sei. Foi a única resposta que abstraiu. Cada vez mais entristecido demonstrava estar.

            Após o almoço delicioso feito pelas mãos mágicas de Chica: ora por nobis, colhido ali perto do galinheiro, um pernil assado, do leitãozinho morto há alguns dias e uma polenta fumegante com queijo coalho por cima; Ritinha se deitou na rede para ler aquele romance, que há muito havia esquecido em meio aos brinquedos de criança, aquele comprado na mão do mascate. A história era de um mulato que se casava com uma mulher branca, contra tudo e todos os preconceitos.

            Na segunda-feira, Ritinha pôs-se de pé, eram cinco da manhã, Açafrão – com todo o seu esplendor alaranjado - mal tinha dado o primeiro alarde do dia. Mas Chica já estava nos afazeres e colocando a mesa do café. Tomou seu café com um leite bem quente, pura nata, como ela saboreava, comeu o biscoito de polvilho e já foi logo avisando à preta que ia ter que sair pela manhã, iria na casa de Bernadete, pois tinha que ajudá-la em uma tarefa.

            Pegaram a charrete do pai de Bernadete e seguiram pra cidade, o caminho conheciam de cor. Ao chegar lá, foram direto à confeitaria, perguntaram para o garçom se sabia de uma professora que vinha sempre ali, descreveram-na de modo detalhado. E o moço logo falou que sim, que sabia quem era, inclusive, disse que ela passava todos os dias – exceto sábado e domingo - por volta das nove horas, acompanhada de um rapazote. As meninas ficaram excitadíssimas, eram oito e quarenta. Agradeceram-no pela informação e se sentaram à mesa; Bernadete pediu uma croissant de queijo com presunto e ameixa, Ritinha pediu sua adorada torta de nozes, ambos acompanhados de um delicioso chocolate quente.

            Não demorou muito e viram adentrar ao salão, a professora; estava só, usava um vestido branco de poás azuis, um sapato azul e um laço de fita no cabelo da mesma cor. As meninas ficaram inquietas, esperaram-na se assentar e fazer o pedido. Assim que isso aconteceu, foram até a mesa.  A professora se assustou, não esperava aquele encontro e muito menos o queria. Fez menção de se levantar, mas Ritinha segurou seu braço e firmemente falou-lhe: Por que nos abandonou, sem ao menos se despedir? Acho que mereço pelo menos uma explicação. Barbara abaixou a cabeça e pôs-se a chorar. As meninas não sabiam o que fazer e ficaram totalmente desnorteadas. Pediram ao garçom um copo de água com açúcar. Após um tempo, que pareceu uma eternidade às duas meninas, Barbara começou a contar-lhes sua história.

            “Eu tinha apenas quatorze anos, quando me apaixonei perdidamente por um rapaz, este me prometeu e jurou amor eterno. Entretanto, ele partiu em busca de seu sonho e não voltou, morreu, vítima de uma doença desconhecida. Só que quando ele se foi, eu carregava no ventre um filho dele. Fui expulsa de casa. Bem, para resumir, deixei meu filho em um lugar seguro e não desisti do meu sonho de estudar, tornei-me professora. Após sair da fazenda, busquei meu filho e hoje vivo com ele. Foi isso que aconteceu e por isso eu fugi, porque estava me apaixonando por seu pai, Ritinha. Como poderia contar-lhe tudo isso? Ele não iria me querer, não, eu, uma mulher desonrada. Sei que não tenho esse direito”

            As meninas não abriram a boca enquanto a professora falava. Ficaram pasmas com a história. Entretanto, passado o tempo necessário da assimilação daquilo tudo, Ritinha disse-lhe, calmamente, acho que você merece sim ser feliz. Meu pai estava tão feliz, quando você morava lá. Você o fazia feliz. Acho que deveria lhe contar a história também. Tenho certeza de que ele entenderá o que aconteceu e, quem sabe, poderemos ser uma grande família, ganharei até um irmão.

            Bárbara prometeu a elas que iria pensar a respeito, mas sentia muita vergonha de contar a história ao Seu Savério, tinha medo da sua reação. Ritinha, por sua vez, garantiu-lhe que o pai era um homem muito generoso e saberia compreendê-la. E fez uma pergunta: Você gosta do meu pai? Bárbara disse que depois do primeiro amor de sua vida e pai de seu filho, nunca mais havia se interessado por homem algum, a não ser o seu pai. Ritinha ficou radiante e disse-lhe que tudo daria certo. Acrescentou que gostaria de convidá-la para sua festa de 15 anos, seria no próximo sábado, às 19h:00min, aliás, ela e o filho. Por sinal, como ele se chamava? Ricardo, esse era o nome do rapaz, que estava com 14 anos também. Ela prometeu pensar com carinho.

            Era sábado, dia 20 de setembro de 1932, o céu coroava o dia com matizes de azul, não havia uma nuvem sequer, era a esperada festa em que Ritinha debutaria. Estava ansiosa, menos pela festa e mais pelo fato de esperar que seus convidados especiais chegassem. As mesas estavam arrumadas com ramos de flores silvestres embaixo de uma bela tenda branca. Do outro lado, havia uma banda de música que tocava valsas e sonatas, ao som de violinos e outros acordes advindos de outros instrumentos. O bolo era de três andares, com rosas nas bordas, uma verdadeira escultura.

            Bernadete tentava acalmar a amiga, dizendo que tudo daria certo e que ela aproveitasse a festa, pois tudo aquilo era para ela. Ela havia feito o que era possível.

            Às 19h:20min, a professora Bárbara chega, acompanhada de seu belo filho. Ritinha não se conteve de tanta felicidade. Aproximou-se deles e cumprimentou-os. Nesse exato momento, seu pai se vira e de longe, vislumbra a silhueta da moça, que trajava um belo vestido azul anil. Aproxima-se e também os cumprimenta, dando-lhes as boas-vindas. Ritinha se adianta, convida Ricardo para dançar e, sorrateiramente, sai, dizendo que ambos tinham muito a conversar.

 

           

 

Uma crônica

 

Sobre patins

Na adolescência, tive um par de patins, branco, de bota de cano longo. Meu pai o comprou nos EUA, em uma época em que existiam poucos como esse, pois a maioria, no Brasil, era aquele, no qual se encaixavam os pés já de tênis. O meu era lindo, único e eu me achava o máximo; aquele sentimento típico da adolescência. Naqueles tempos, a popularidade aumentou e ainda arrumei um paquera americano, cujos patins eram semelhantes aos meus.

Rodávamos pelo bairro, pois, naquele tempo, não havia pista de patinação, o jeito era andar pelas ruas; sempre fui intrépida e isso não era problema pra mim: gostava do perigo e da adrenalina.

Alexander, este era o seu nome, meu partner; ficou caidinho de amores por mim e eu, bem, nem tanto. Descolada, aventureira, queria curtir a vida, intensamente, sobre patins.

Saíamos pelas ruas e avenidas, apostávamos corrida, brincávamos, encontrávamos com amigos, rodopiávamos, tentávamos passos e giros novos... e ainda tínhamos tempo para dar aquele beijo. Tudo novo... o beijo, os patins.

Eram dias felizes, sem preocupações, sem urgências... Porém, cheios de emoções e novas descobertas. A vida seguia naquele ritmo, sobre as pequenas rodas, sobre patins.

O que é ser mãe?

 

Ser mãe

Sou mãe há mais de 30 anos

Tive três. Um Deus está guardando com ele.

Descobri nesses anos que não há tarefa mais difícil.

Mestrado? Doutorado? Isso a gente tira de letra.

Vamos lá...

É como se você comprasse um item pela internet, sem manual de instrução. Aí, quando chega, a gente olha, acha a coisa mais linda do mundo, mas não sabe mexer. E tem que ter cuidado, porque é frágil, é delicado. Mesmo sem saber direito como, vamos cuidando e amando, ah, amando, infinitamente.

Faço outra analogia: como se recebêssemos uma sinopse de um filme para executarmos; chega aquele filho, que não sabemos como será, quais serão seus gostos, suas aptidões. E aí, como escrever essa história? Porque é um longa-metragem, precisa fazer sucesso. Se não, a culpa é sua; no final das contas, foi você quem não dirigiu direito, não escolheu as personagens corretas, não elaborou o roteiro que agradasse ao público.

A gente se perde diante de tanto amor quando avistamos a cegonha trazendo aquelas criaturinhas indefesas: não importa se planejamos ou não. O amor é incondicional! São tão dependentes, tão pequeninas. O coração chega dói quando as olhamos e enxergamos aquela fragilidade, queremos protegê-las de todos os perigos. Aí, nós nos tornamos quase super-heroínas, acreditamos mesmo ter superpoderes e combatemos até as últimas forças para mantê-las resguardadas.

Não façam nada com nossos rebentos, porque podemos nos tornar verdadeiras leoas. Podem até fazer conosco, mas jamais com eles. Aliás, depois que se é mãe, nada nos fere tanto como aquilo que atinge nossos filhos.

Só que as “nossas criaturinhas” crescem, criam asas e voam mesmo, para bem longe.

E por mais que saibamos que eles são na verdade um “empréstimo” de Deus, é muito difícil quando eles estão distantes, porque mãe é assim: nada mais simbólico do que aquela galinha no terreiro com seus inúmeros pintinhos embaixo de suas asas. É desse jeitinho que queremos.

Não é porque não queiramos que eles cresçam, que sejam independentes, que tenham suas vidas, suas famílias. Nada nos dá mais orgulho do que o sucesso deles, nada nos dá mais alegria do que os ver felizes.

Então, resumindo, ser mãe é isso: esse desejo conflituoso do amor de quem ensina a andar de bicicleta, a gente solta, mas tem medo de que eles se machuquem.

 

Por Carla Cunha

08/05/2021

Homenagem a minha cidade

 

Em algum momento de 1998, escrevi este texto.

 

Se eu fosse pintor

Retrataria minha cidade.

Aquela do exacerbado adjetivo de maravilhosa.

Das ruas alegres e corpos malhados.

Essas ruas de nome de gente famosa.

 

Quando olhei para a gravura.

Ah! Que saudade!

Nem vi a figura central,

A lembrança foi de minha cidade.

 

Trabalhadores e bandidos!

Mas é minha pátria,

É onde reencontro amigos

E sinto o cheiro de praia.

 

Nas ondas do Leme, Ipanema,

Copacabana, Barra.

Meu corpo se refaz.

Logo na chegada, quando avisto o cais...

 

Namoro, cinema e teatro

Coisas boas que vivi, senti

O colégio de freiras, que barato

Memórias que me fazem rir...

 

Se eu pudesse pintar de azul

O céu escuro da violência

Ah! Se eu fosse pintor...

 

Maravilhosa, sim.

Rio.

 

 

 

Só poetando

 

04/06/2004

Escrevo para um amigo, poeta, trovador:

Desfaça esse mal-entendido do amor

Que não seja apenas lástima e sofrimento

Que o verso da rima rica seja de encantamento

 

Não faça trova por inútil dor

E na estrofe perfeita do seu labor.

Deite a fina flor de do afago de Eros

E de desejo, volúpia, encha-se, com esmero.

 

Não teça a teia da vil tristeza.

Deixe nascer dessa flor: a beleza

Pois dela, o que mais há, é ternura

Mesmo que ao fim seja loucura!

De novo, perdão

 

Para pedir-lhe perdão escrevo em versos

Para dizer-lhe o quanto sinto...

Em vão clamo a Deus, ao universo

Tira-nos deste imenso labirinto

 

Nesse turbilhão de palavras vis

Vejo o que há de melhor

Dos olhares e gestos sutis

Entrego-me ao que há de pior

 

Nas ofensas, encontro a desculpa

E resolvo no meu desabafo

Em ti condenar a culpa

 

Depois, no silêncio do coração

Onde nada e ninguém vê

Sofro calada e te peço perdão.

 

 

 

Perdão

 

Perdão: uma palavra

Talvez a palavra perdão

Seja útil em alguns momentos

Mas de uso indiscriminado

Não sai da boca de uns elementos

E naqueles, cujo orgulho é maior

A palavra perde a sua força

E o coração cada vez menor

Fica a doer mais que no outro

Enquanto a dor é remoída

A alma e o corpo padecem

Mas esse mal tem cura

Basta pronunciar...

06/10/2004

Meus 40 anos

 

MEUS PASSOS, MEUS LAÇOS...

Dos primeiros passos, pouco me recordo; a infância há muito se foi. Mas, desde então, laços se criaram, afetivos, quase nós. Período em que os passos são ainda pequenos, trôpegos. As primeiras quedas também ocorrem aí, entretanto, são leves, não nos machucam tanto, e sempre há alguém que nos socorre. Quando não tão brandas, deixam cicatrizes, que podem até ficar para a vida toda, porém não doem com o tempo.

Passada aquela etapa, começamos a dar passadas mais firmes, queremos correr. Os tombos são inúmeros e inevitáveis...Queremos desatar os nós, afrouxá-los. Uma sensação nova de liberdade: podemos fazer sozinhos tudo aquilo que até então era impossível ou complicado. Os passos agora podem ser sobre rodas: bicicleta, patins, velotrol. Sentimo-nos quase super-heróis, ou totalmente? Não há ainda aquela noção de perigo, podemos tudo, sem limites, até voar! As janelas, nesse momento, são altamente inebriantes e convidativas.

Outra fase. Nossos laços agora começam a se diversificar. Experimentamos o outro. Tem aquilo que pertence ao outro, a convivência com o outro, a troca como outro... Nosso espaço também já é outro. Escola, praça, praia, casa de amigos. Vivendo a alteridade.

Momento complicado esse. Dúvidas, dúvidas, dúvidas... São tantos os porquês! Nossa vida transforma-se num caos e o pior é que não sabemos solucionar nada. A roupa nunca é adequada. Os outros estão sempre contra mim. Nosso corpo é horrível. Mas somos os melhores. Não conseguimos nem nos atender.

Agora a palavra de ordem é LIBERDADE. Temos os poder nas mãos. Queremos experimentar tudo. O que há de pior e o que há de melhor. Tempo bom esse... Realizar é importante, imprescindível. Divertir-se é o melhor. Rir mesmo sem motivo. Defendemos bandeiras... Soltamos se de vez  as amarras... É hora de criarmos laços apertadíssimos com um outro, em especial. Formam-se diversos outros laços, alguns vão pela vida toda, outros se desfazem. O caminho agora parece longo e as passadas têm que ser acertadas.

Responsabilidade. O caminho já foi bem trilhado. Os passos são firmes, raramente desviados. Pensa-se muito. Trabalha-se. Constrói-se. Os laços agora são estreitos, importantes, profissionais, familiares, amorosos, amistosos. Esses, dificilmente, irão se desfazer. A não ser que a vida – ou a morte – resolva nos separar.

Nesta época, os meus passos, os meus laços dos quarenta, começamos a considerar o que foi vivido até aqui. É uma saudade boa, não uma melancólica lembrança. É preciso considerar que se chegou à metade do caminho. O tempo é inexorável. As feridas, as cicatrizes que chegaram até aqui são indeléveis. Os laços são indestrutíveis. Os valores inabaláveis. E agora as perdas são muitas. É hora de fazer um balanço!

08/04/2007

Uma voz que grita...

 

30/09/2007

Indignação

 

         Quero uma voz que fale no Congresso, nas Assembleias, da ultrajante, humilhante profissão, que é ser educador nesse país, na atualidade. Esperança em vão... Quem irá brigar por essa categoria; esta, que poderá ser capaz de fazer com que os milhões de jovens dessa terra – dita “em que se plantando tudo dá” – abram os olhos e agucem os ouvidos para as infames arbitrariedades que lhes são impostas.

         Um jovem matuto é muito melhor que um jovem astuto para o velho e bom político brasileiro. E tudo continuará na mesma. Para que é preciso educar as crianças, os adolescentes e os jovens? Amanhã, eles serão adultos e nós precisaremos deles como “mansos cordeiros”, não para entrarem no reino do céu, mas sim pra entrarem nessa verdadeira cova de leões. Bem-vindos à sordidez e à hipocrisia!

         E outra. Já temos coronéis demais pra mandar, caciques também.

         Educação é artigo de luxo! Essa é a minha mais nova descoberta. Podemos até ter profissionais empenhados e estudantes dedicados. Pode ser até que frutifique um ou outro, mas a maioria... Não. Não é culpa deles. É do sistema. Já ouviram isso? Pois é, mas, nesse caso, é a pura realidade. O sistema maior, os governantes - a maioria, para não ser injusta – não têm o menor interesse em fazer desta nação um lugar de letrados. Muito pelo contrário, é excelente que se mantenha o status quo, para eles. Seria preciso, talvez, uma Renascença, em pleno século XXI, para se valorizar a ciência, a razão, o conhecimento. Essa é a verdadeira Idade das Trevas!

         Alguém diria logo: “Só podia ser discurso de professor.” E eu responderia, altivamente: “Não, educador! Meu ofício é formar cidadãos.” Não importa que disciplina ensinemos, antes de mais nada, nós plantamos sementes, que colheremos daqui a alguns anos. Esperamos que realmente nasçam em boa terra e deem bons frutos ou flores.

         Por que perdemos o respeito social? Até meados do século XX, ainda éramos respeitados – como os advogados e os médicos, chamados de doutores, tínhamos salários dignos. Não é possível que ninguém se dê conta de que todos – exceto aqueles que nunca estudaram tiveram que passar pelas mãos de não um, mas vários professores.

Sabe o que é, meu povo, concidadãos – para usar de uma mesma linguagem que os “lá de cima”? Nós – agora chamados de facilitadores – melhoraríamos a vida de inúmeros brasileirinhos e brasileirinhas, mas... dificultaríamos as dos “grandes”.

 

Homenagem a um amigo da História

 

Vamos contar uma HISTÓRIA? Então, essa é a história do cara que queria mudar a sua História. E conseguiu... Saiu do seu status quo... E como um BANDEIRANTE, adentrou matas, conquistou territórios... Entrou pra Universidade, foi trilhando o caminho dos desbravadores, fez o Mestrado e, agora, mais uma vitória, está no Doutorado...Eis a INDEPENDÊNCIA!

Tive o prazer de conhecê-lo anos atrás; quando eu era gestora escolar e ele, trabalhava na SEDU, no setor do Livro Didático. Naquela época, tive já uma admiração, por ele trabalhar com livros, uma das minhas paixões.

 Em 2017, eu o reencontrei, na REPÚBLICA Escola Viva. Tivemos um ano de boa convivência e parceria. Digo parceria, porque, em alguns momentos, precisei de sua colaboração, quando trabalhava temas de redação, que requeriam um conhecimento histórico, e ele, sempre se mostrou solícito em partilhá-lo com os alunos.

Tivemos alguns bons papos, quebrando a rotina árdua do dia a dia, em nossos cafés e almoços diários, sobre assuntos diversos; mas, claro, quase sempre sobre História, um gosto comum a ambos.

Como um REI, uma pessoa de temperamento forte, um profissional competente, sério, positivo em suas atitudes. Mas também cordial. Capaz de despertar paixões em suas PLEBEIAS alunas adolescentes e admiração nos VASSALOS estudantes.

Não importa que caminho escolheu, agora; não importa se a HISTÓRIA é CONTEMPORÂNEA, MODERNA ou ANTIGA, mas deixará saudades em nosso pequeno FEUDO...

Historiando por aí, desbravará mares e oceanos, como nossos ancestrais portugueses, outras terras, outros continentes...

Construa seu IMPÉRIO... Muitos são os desafios, mas você é um bravo CAVALEIRO. E vencerá os obstáculos!

Desejamos sucesso nessa importante jornada...

Vá de CARAVELA... Aproveite.. E navegue por águas nunca dante navegadas... Mas volte... Para matar as saudades!

 

 

Aos alunos

 

HOMENAGEM AOS ALUNOS

 

E são muitos: Adrianas, Adriano, Ariany, Antônio, Alexanadre, Arthur e ...muitas Anas

Entre esses sujeitos... há muitos predicados...

E também há Brunas, Byanca, Carlos, Christianes,

E além dos Diogos, Dayane, Daylane, Deisiane, David, Douglas(um sumido) e Daniel...

Acentuamos tantas palavras...Escrevemos uma nova história, sempre...

Aos Eliabes, Elisa ,Elaines, Eduardos, Ericas, Ericks, Eliel, Elielton, Esdras e Felipes...

Muitas orações, claro que coordenadas, subordinadas...

Tenho os  Gabrieis...

E concordamos:  regemos muitos verbos e substantivos...

E o que dizer das Helenas, Hugo,  Izadoras, Isabelis,Isabelas (todas belas),  Iasmym e Ivillyn...

Muito Realismo pra essa turma... E sempre escrevendo e reescrevendo...

Que falar dos Joões (que são muitos e danadinhos), Jessica, Julia, Jefferson, Jurandir, José Arnaldo e Julianas...

Só o Romantismo...tantos beijos pelos corredores...

E mais ...as Kamilas, Kamili, Karina, Kevilyn, Képhany...

Termos mais que essenciais...integrantes e acessórios!

Não esqueçamos os Luans, Luanas, Lorenas,  Lucas, Luis, Livias,  Livian, Larice, Liniker, Luciano e Leo...

A esses, umas figuras, de linguagem, claro...

Ah, e como me esquecer das Marias: Luizas, Clara, Eduardas, Vitórias (Essas, com certeza, inesquecíveis...)...

Muito trabalho, escrevendo, escrevendo, Desastres ambientais, Legalização da maconha, Liberação do porte de armas, PAEBES, Depressão, Aborto, Bullying, Orçamento público, Sistema penitenciário... UFA!

Ops! Faltaram as Manuelas, Michele, Marianas, Michael, Maycon, Melissa, Messias, Mateus e Mastherson ...

Sem me esquecer dos Nicolas, Noemi, Nicolly e  Náksia...

Ainda há os Pedros  e a Paloma

 

Quantas provas, seminários,  redações...

Lembro-me bem dos Rodrigos, Reinan, Richard, Ruth, Raquel, Ramon, Roger, Ruan e as Rafaelas

Como esquecer-me das Samiras, Saymon, Samueis, Sharles(que foi embora) e Samara...

E para estes, as reflexões? Cada dia uma...

E aqueles do final da lista?... Thaiyssa, Thiagos,Thais, Talitas, Vitórias, Victors...

Escrever certo, escrever errado, eis a questão! Aprender ou não?

Os nomes diferentes: Yan, Yone e Yory – Não é Trio sertanejo!

Ainda não acabou... Faltou Walace, Warley, Welington e Yasmin

No final, a turma dos desesperados... Vou ficar? Não vou ficar? Correndo atrás do prejuízo... E dentre tantas classes de palavras... Ficam os adjetivos: mau, bom, maravilhoso, razoável, esforçado, dedicado, bagunceiro... Não importa se ele ou ela, se eu ou você... O importante é que sejamos nós... De que modo? O melhor. Em que lugar? Aqui. Quando? Agora e sempre.

Entretanto, contudo, todavia... por fim, chegou ao fim!

Então, conjugue todos os verbos, transitivos ou não, no presente, porque esse é real: amar, ser, estar, cantar, dançar... E que o imperativo seja o AMOR... Ame...

Viva o substantivo! Pois o essencial da vida continua sendo o AMOR!

Quero dizer ainda que foi um ano de muito aprendizado para todos nós. Assim como espero que tenham aprendido comigo, tenho certeza de que aprendi com vocês. Compartilhamos conhecimentos...

Construímos juntos... uma nova história!

Mas somos falhos e peço perdão pelas vezes que não pude ser melhor e que falhei.

Desejo a todos um fim de ano abençoado e que 2018 seja de muitas vitórias!

Homenagem a seu Zé

 

Guardião da rua

Quinta-feira, dia 08 de abril de 2021, perdemos nosso guardião da rua. Eu sei que a Morte não avisa quando vem, mas ela gosta mesmo de nos pegar de surpresa. Assim foi. A Rua São Paulo neste dia ficou incompleta, aliás, está incompleta, permanece incompleta.

Aos desavisados, não é que ele fosse o nosso vigilante, não. Seu Zé, na verdade, poderia sim assumir essa função, pois zelava por esse nosso pequeno espaço.

Quando meu pai se foi, Seu Zé foi de poucas palavras comigo, disse-me, singelamente e tão sinceramente: “Vou sentir falta do Seu Jerônymo, não terei mais meu companheiro pra ir comprar pão todas as manhãs.” Senti o quanto aquilo era verdadeiro.

Agora, sou eu quem pergunto: “Para quem darei bom dia ou boa tarde, quando eu for levar o lixo no latão da esquina?”

Gostava de uma boa prosa e tinha sempre uma história para contar. Um dia, há muito tempo, contou-me que trabalhou como representante; se eu não estou enganada, acho que com óculos. Também estava sempre engajado com as questões do bairro, se faltava água, se faltava luz. Se tapariam os buracos...Seu Zé sabia.

Esta rua tornou-se um tanto solitária com a sua partida, Seu Zé. Confesso que fiquei um tanto atordoada quando recebi a notícia. Sabe aquelas pessoas que fazem parte do nosso dia a dia? Assim era.

Espero que lá onde esteja, que Deus tenha reservado um lugar especial e que o senhor tenha uma grande alameda para ficar e tomar conta. E que possa encontrar-se com aqueles que se foram. Quem sabe, poderá comprar pão com papai!

Seu Zé, tem pão no céu?

 

Dos pingos da chuva que caem (sem data)

  Dos pingos da chuva que caem São os números que conto esperando na sua ausência Na goteira que se formou do telhado ao chão sinto o beijo ...